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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

"Minha mãe deteve-se um mês em Lisboa. Adivinhei-lhe o desejo de me trazer consigo para a província; mas a obediência não podia levar tão longe a abnegação.Recordar estes sítios, ver além os horizontes de Braga, cuidar que ainda havia de encontrar fortuitamente Teodora, ou alguém que me falasse das felicidades dela, isto apertava-me tanto a alma que eu sentia em mim um desfalecimento de coragem, uma quase precisão de pedir a todos em altos brados que me amparassem.”

"Então pensei em ir para Coimbra, onde esperava eu que mil rapares de todas as condições e feitios me arrancariam de mim próprio e levariam em suas folias, ou me habituariam o espírito às consoladoras ocupações do estudo“.

"Minha mãe acedeu prontamente à minha vontade.”

"Fui para a Universidade, muito escasso de preparatórios, e por isso me matriculei em Filosofia. Logo aos primeiros dias conheci que fora um erro confiar nas distracções juvenis de Coimbra. Alistei-me primeiramente na roda dos moços velhos, gente ridícula; mas de uma ridiculez que não distrai ninguém. Cada um parecia que trazia dois oráculos na cabeça; antes de expenderem os seus dogmas, punham-se à escuta da inspiração; e, ao abrirem a boca, a própria Minerva das escadas latinas cuidavam eles que se apeava do soco para escutá-los. Zanguei destas criaturas infestas e fui-me inscrever na fila dos literatos militantes, gente de pouco saber, de muitas maravilhas, questionadora por necessidade de adivinhar a discutir o que não sabia da leitura, enfim, futuras esperanças da Pátria, que bem sabiam que uma diminuta ciência, com muita ousadia, basta para atingir os pináculos sociais. Tinham estes rapazes um jornal.

Publiquei sem assinatura uma das muitas poesias que eu tinha escrito nos arvoredos de Belas, nos tempos em que a imagem lacrimosa da reclusa das Ursulinas ia lá comigo a ouvir a voz de Deus nas harmonias da Terra. A poesia Unha a religiosa suavidade de um amor que se alivia aos santos enlevos do coração virgem. Os literatos disseram que eu imitava Lamartine e que mesmo o traduzia quase literalmente em algumas estrofes. Ora eu não tinha ainda lido Lamartine: fui lê-lo, e corei de vergonha pelo grande poeta comparado comigo. Em todo o caso, desgostei-me dos meus colegas por se darem uns ares de tolice muito por aí fora dos limites razoáveis. Passados tempos, dei ao jornal uma outra poesia, fremente de paixão, arrojada, Vertiginosa, escrita depois do meu desastre. Os meus colegas avisaram-me de que a academia, lendo a minha ode,.35 declarara que eu taduzira Vitor Hugo. Fui ler depois Vitor Hugo, e lastimei que os soberanos do génio estivessem sujeitos às chufas de todo o mundo, sem excepção dos literatos meus contemporâneos da Universidade.

"Enfadado de uns sandeus, que nem mesmo eram recreativos, bandeei-me com os trocistas, iniciando-me para isso nas libações homéricas da genebra e conhaque do Troni. A primeira vez que me embriaguei, recobrando o tino, envergonhei-me; lembrou- Me minha mãe, e chorei. Não impediu isto que me aturdisse segunda vez. Os meus sócios de delírio diziam que eu, embriagado, era um moço de boa companhia, alegre, sarcástico, irónico, eloquente e mesmo espirituoso. E, em verdade, das minhas perdas de razão ficavam-me lembranças de ter visto o mundo de outra cor e de haver idealizado quimeras douradas por novas e esplêndidas auroras de outro amor. Comecei a sentir saudades da embriaguez quando, no uso integro das minhas faculdades, me acometiam os terrores da noite infinita do meu coração, horas roubadas ao tormento dos parricidas, asco acerbo a tudo que em volta de mim revelava alegria, ódio mesmo à luz que me mostrava os espectros da natureza, em que noutro tempo a minha alma toda oração, toda absorvida, se evolava em eflúvios de admiração para o Altíssimo.

"Neste perdimento de dignidade terminei o primeiro ano, com aprovação plena, e resolvi passar as férias em Lisboa."

- Com aprovação plena! -atalhara eu a Afonso de Teive.

"Por que não?", respondeu ele. "As minhas noites eram quase todas desveladas, depois que me recolhia fatigado das assuadas e distúrbios. Se o torpor me não adormecia, a visão de Teodora sentava-se em frente da minha mesa e dialogava comigo, ela no tom escarnicador da mulher ovante da sua desonra e eu no acento suplicante de quem já não tem que pedir senão piedade.

"A refugir deste suplicio, ferrava com desespero dos livros da aula, relia-os sem compreendê-los; mas esmagado o coração sob as mãos de ferro da vontade, conseguia entender, decorar e expor com clareza, uma ou outra vez, as ideias dos compêndios. Os meus créditos firmaram-se desde que me estreei vantajosamente numa lição. "Pediu-me minha mãe que a visitasse em férias, embora me demorasse poucos dias. Sem me negar aos seus desejos, consegui que ela fosse ao Porto passar comigo a estação dos banhos de mar. Anuiu a santa senhora.

(continua...)

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