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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

Fechada a sepultura de José Maria, a viúva ajoelhou à beira do leito do irmão.

― Não morras, que eu não tenho outro amparo! – lhe clamara ela.

― Qual amparo?! – murmurou ele.

― Trabalharemos, meu irmão! Vê que sou mulher, e não desespero! Vê que dores me traspassam, Francisco! E vivo, e vivo, meu querido irmão! Lembra-te da coragem da infeliz menina!... Não sejas tu o mais fraco de tantos desgraçados, já que...

― Já que foste a causa... – completou o moço a frase, e rompeu em choro desfeito.

Depois, sentou-se no leito, fincou os dedos recurvos na fronte, e disse:

― Pois sim: trabalharemos.

E, volvidos poucos dias, Joana e Francisco saíam para o Porto, com quanto dinheiro possuíam: o urgente para a alimentação de oito dias.

O estudante abandonou as aulas. Quem o sustentaria? Como congraçar o estudo com qualquer outro emprego? E qual emprego lhe daria pão, exauridos os cobres salvados dos últimos vestidos feitos por sua irmã?

Joana pediu trabalho a uma modista francesa. Exigiram-lhe fiança. Ela disse a chorar que não conhecia ninguém. Abonaram-na as lágrimas. Permitiu a modista que a desvalida levasse as fazendas para um sótão da Rua Escura, onde seu irmão tinha vivido como estudante de escassos recursos. Francisco vendeu todos os seus livros, depois que apartou de entre eles as Esperanças de Ângela. Comprou com o produto deles a catre de sua irmã, que dormia sobre tábuas. Dizia ela que para quem passava as noites trabalhando e chorando todo o leito era bom.

Os condiscípulos do acadêmico, sabedores do infortúnio do primeiranista, quotizaram-se para lhe acudir e salvar o ano: Francisco rejeitou a esmola sem orgulho, dizendo: “Quem não pode ser médico, seja operário de mais humilde condição”.

Um dia ofereceram-lhe o lugar de amanuense de tabelião. Aceitou muito agradecido. Escrevia à rasa, e ganhava trezentos réis diários. No sótão da Rua Escura, depois de dois meses de trabalho incessante, com intermitências de lágrimas, havia horas regulares de comer.

Eis aqui o poeta dos SONHOS, três meses depois que... sonhava

Que despertar aquele! Se não vale mais andar um homem sempre acordado, e a patinhar na lama deste planeta para não adormecer!...

Entretanto, Ângela de Noronha, ou d’Antas, como as tias a apelidavam para sacudirem de si o opróbrio de tal parenta, ainda lia os SONHOS do cismador do monte d’Agra e das ribas do mar. O manuscrito e cartas de Francisco andavam na caixa de Vitorina, valendo todavia menos às amarguras de Ângela do que o oiro da velha, o qual (digamo-lo com vênia da poesia, e da prosa apocalíptica) tornava muitíssimo mais prestimosa a caixa da generosa criada.

O recolhimento e conformidade da filha do general moveram à comiseração algumas religiosas, que se não pejaram de freqüentar a sua desornada cela, a ocultas de soror Cassilda. Se alguma freira, mais desprendida de respeitos e preconceitos, se afoitava a argüir de cruel a inválida consoladora dos extintos frades, Cassilda respondia que não aceitava como sobrinha a mulher que seu irmão não considerava filha. Esta razão passava com foros de discreta e ajuizada.

Quem mais se compadecia de Ângela era uma criada da prelada. Assim que vagava às lides caseiras, ia com mostras de grande respeito à cela da fidalga, e ali se esquecia a contemplá-la, e a dizer coisas muito encarecidas, fascinada de sua beleza. Muitas vezes ofereceu as suas soldadas de trinta anos a Vitorina, às escondidas da senhora; mas a criada fazia milagres de economia com o produto dos seus enfeites, auxiliado com os bordados da ama.

Rita de Barrosas – que assim se chamava a criada da abadessa – contou muito secretamente a Vitorina que sua ama tinha apanhado uma carta muito grande, vinda do Porto para a fidalga; por sinal, ajuntava Rita, que a senhora abadessa, lendo-a a outras freiras, chorava com elas.

Com o bom propósito de não acerbar as dores de sua ama, Vitorina ocultou esta confidência. E, quando Ângela, brandamente, acusava o esquecimento de Francisco, a criada, conciliando a discrição com a consciência, dizia:

― Deus sabe o que ele padece! E vossa excelência sabe também que à sua mão, carta que ele escreva, nunca chegará.

― Mas nem Joana... aquela infeliz mulher...

― Deus sabe também se ela terá papel em que lhe escreva... Minha querida menina, tenha compaixão deles, que são mais infelizes do que vossa excelência. Disse-me a Rita de Barrosas que ouvira contar misérias da pobre gente lá pelo Porto. Olhe, minha senhora, se vossa excelência puder esquecer o Sr. Costa, ainda pode ser que volte às boas graças de sua família, e seu paizinho, à hora da morte, lhe perdoe, e a deixe herdeira dos bens livres, como todos diziam que deixava; mas, se eles souberem que vossa excelência ainda teima nestes praguejados amores, então não sei o que há de ser da minha infeliz menina.

(continua...)

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