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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocará o Cruges?

Ega não sabia, todo o programma fôra alterado.

- E tens cá a Gouvarinho! Está lá adiante, d'azul... Hei de querer vêr logo esse encontro!

Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente «bonsoir, messieurs...» Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de casaca, em pontas de pés, com as claques fechadas. E immediatamente Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...

- Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assuré que la reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute cette musique, ces vers?... Voilà pourquoi je suis venu. C'est très ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santé?

- Merci...

Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traça n'uma tela linhas lentas e nobres, descrevia a doçura d'uma aldeia, a aldeia em que elle nascera, ao pôr do sol. E o seu vozeirão velava-se, enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Então Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande orador de que lhe tinham fallado...

Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!

- Em qual génerro?...

- Genero sublime, genero de Demosthenes!

Steinbroken alçou as sobrancelhas com admiração, fallou em filandez ao seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques debaixo do braço, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os dois enviados da Filandia ficaram escutando, á espera do sublime.

Rufino, no emtanto, com as mãos descahidas, confessava uma fragilidade de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus irrefutavelmente, - elle fôra dilacerado pelo espinho da

descrença! Sim, quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle passára junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire...

Um largo fremito d'emoção passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam : murmurar «muito bem, muito bem...»

Pois fôra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a Natureza que atacava seus filhos! - E lançando os braços, como quem se debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundação... Aqui aluia um casal, ninho florido d'amores; além, na quebrada, passava o balar choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando um botão de rosa e um berço!...

Os bravos partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: «Que rajadas!... Caramba!... Sublime!...»

Rufino sorria bebendo esta commoção, que era a obra do seu verbo. Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e vazias...

Vendo que a cólera da Natureza rugia implacavel elle erguera os olhos para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvação, para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre elle estenderam-se as azas brancas d'um anjo! Era o

anjo da esmola, meus senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiração da caridade? d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia? dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega covardemente a alma? Das sêccas escólas de philosophia que fazem de Jesus um precursor de Robespierre? Não! Elle ousára interrogar o anjo, submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaço divino, murmurára: «Venho d'além!»

Então pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um estremecimento devoto e poetico arrepiava as caias das senhoras.

E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! Desde esse momento, a duvida fôra n'elle como a nevoa que o sol, este radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Benan, d'um Littré e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia alli, com a mão sobre o coração, affirmar a todos bem alto - havia um céo!

- Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.

E por todo o salão, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mãos, affirmaram soberbamente o céo!

O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cólera. Era o Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os bigodes.

- Que te parece, Thomaz?

- Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.

(continua...)

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