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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porém o encantava Maria que nunca lhe parecera tão bella: o vestido claro que tinha n'essa noite modelava-a com a perfeição d'um marmore: e entre as velas do piano, que lhe punham um traço de luz no perfil puro e

tons d'ouro esfiado no cabello - o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, são, perfeito... E quanto aquella serenidade da sua fórma devia tornar delicioso o ardor da sua paixão! Carlos era positivamente o homem

mais feliz d'estes reinos! Em torno d'elle só havia facilidades, doçuras. Era rico, intelligente, d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; só tinha o numero d'inimigos que é necessario para confirmar uma superioridade; nunca soffrera de

dyspepsia; jogava as armas bastante para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o irritava. Sêr verdadeiramente ditoso!.

- Quem é por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pés pelo tapete, quando Maria findou a canção d'Ophelia.

Ega não sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...

Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:

- É esse grande orador de que fallavam na Toca?

Não, não! Esse era outro, a sério, um amigo de Coimbra, o José Clemente, homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um ratão de pera grande, deputado por Monção, e sublime n'essa arte, antigamente nacional e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'um voz de theatro e de papo, combinações sonoras de palavras...

- Detesto isso! rosnou Carlos.

Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idéas, como um passaro n'um galho d'arvore...

- É conforme a occasião, observou Ega, olhando o relogio. Uma valsa de Strauss tambem não tem idéas, e á noite, com mulheres n'uma sala, é deliciosa...

Não, não! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a palavra humana, que, pela sua natureza mesma, só póde servir para dar forma, ás idéas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma criança, ella ri-se e salta no collo...

- E se lhe lêres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho secca-se e berra!

- Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos costumes que ella cria. Não ha inglez, por mais culto e espiritualista, que não tenha um fraco pela força, pelos athletas, pelo sport, pelos musculos de ferro. E nós, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do palavriadinho mavioso. Eu cá pelo menos, á noite, com mulheres, luzes, um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica. E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, voar á Trindade, n'um receio de perder o Rufino.

Carlos deteve-o ainda, com uma grande idéa:

- Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven; nós declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia d'ideal!...

- E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.

- Melhores poetas, affirmou Carlos.

- Bons charutos!

- Bom cognac!

Ega alçou os braços ao ar, desolado. Ahi está como se pervertia um cidadão, impedindo-o de proteger as letras patrias – com promessas perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle não tinha só uma razão litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas Meditações d'Outono, e era necessario dar palmas ao Cruges.

- Não digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me o Cruges!... É um dever d'honra! Abalemos.

E d'ahi a pouco, tendo beijado a mão de Maria que ficava ao piano, os dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, tão clara e dôce, seguiam devagar pela rua - onde Carlos ainda duas vezes se voltou para olhar as janellas alumiadas.

- Estou bem contente, exclamou elle travando do braço do Ega, em ter deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado de cavaco e de litteratura...

Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto ao lado n'um fumoir forrado com as suas colchas da India, depois ter um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte...

Além d'isso havia a lançar a Revista, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto annunciava um inverno chic a valer, como dizia o defunto Damaso.

- E tudo isto, resumiu o Ega, é dar civilisação ao paiz. Positivamente, menino, vamo-nos tornar grandes cidadãos!...

- Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!

Pararam á porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia de praça, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com um chapéo de largas abas recurvas á moda de 1830. Passou junto dos dois amigos sem os vêr, recolhendo um troco á bolsa. Mas Ega reconheceu-o.

- É o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!

- E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.

(continua...)

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