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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

plastico e parnasiano de que elle desejava que a Revista fosse o impeccavel modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam impossiveis... - sem querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de linha e o fato mal feito...

Uma coisa porém ficou decidida: a casa da redacção. Devia ser mobilada luxuosamente, com sofás do consultorio de Carlos e algum bric-à-brac da Toca: e sobre a porta (ornada d'um guarda-portão de libré) a taboleta de verniz preto, com Revista de Portugal em altas letras a ouro. Carlos sorria, esfregava as mãos, pensando na alegria de Maria ao saber esta decisão que o lançava, como era o desejo d'ella, na actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via já a brochura côr de canario aos montões nas vitrines dos livreiros, discutida nas soirées do Gouvarinho, folheada na camara com espanto pelos politicos...

- Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle atirando um gesto immenso até ao tecto.

E o mais contente era o velho.

Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle á rua de S. Francisco (onde Maria se installára n'essa manhã) levarem a nova da grande obra. Mas encontraram á porta uma carroça descarregando malas; e a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, esteve ainda jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa, Ega não quiz subir.

- Até logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e fallar-lhe da Revista.

Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois á esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot, offereceu-lhe uma «senhasinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do Hotel Alliança:

- Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem vende?...

Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gaz do Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flôr no paletot.

- Que é isto?

- Festa de beneficencia, não sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete...

Venha você d'ahi ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.

E na esperança de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando solitariamente, á espera que findasse a primeira comedia, o Fructo prohibido. Então Craft propôz «botequim e genebra».

- E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.

O Taveira não subiu. Todos esses dois longos dias se intrigára desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira tambem. E fallava-se d'uma scena terrível por causa de syndicatos, em casa do presidente do conselho, o Sá Nunes, que terminára por dar um murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal d'Azambuja!»

- Canalha! rosnou Ega com odio.

Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reapparição do Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa com fogões, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.

Taveira acudiu com o olho brilhante:

- Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai receber.

Craft não sabia mesmo que ella já tivesse recolhido da Toca.

- Voltou hoje, disse o Ega. Você ainda não a conhece?... Encantadora.

- Creio que sim.

O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar tão sympathico!

- Encantadora! repetiu Ega.

Mas o Fructo proibido findára, os homens enchiam o peristylo, n'um rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira com a genebra, correu á plateia para descobrir o camarote da Alvim.

Mal erguera porém a cortina e assestára o monoculo - avistou defronte, na primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!

Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, já esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios, correndo os dedos tremulos pelo bigode.

No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeçou no joelho do Ega: outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permissão a s. exc.ª Elle não escutava, não percebia: os seus olhos, um momento errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e não se desviaram de lá, n'uma emoção que o empallidecia.

(continua...)

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