Por Eça de Queirós (1870)
— Ouviram, sim, senhor, ouviram. E não foi só a eles que su cedeu isso, foi a todosquantos cá moravam. E era gente de bem, que não mentia, que não tinha precisão de mentir, que tinham pago a sua renda e que ficaram com ela perdida!
— Então que ouviam eles?- O senhor bem o sabe!.., O que eles ouviam? Ouviam panca das nas portas, quando ninguém batia, nem lhes tocava! Ouviam espirrar o lume e estalarem os carvões exactamentecomo se estivessem abanando à fogueira, quando estava a cozinha só e o fogão apagado! Sentiam o bater das asas de um pássaro que principia va a voar pelas casas apenas se apagavam as luzes; ouviam-no ar quejar e bufar aproximando-se cada vez mais dos queestavam deitados, pairando tão rente das camas que se sentia o estremecer das penas, o calor de lume que ele deitava do bico e ao mesmo tem po o frio de neve que fazia a mover as asas!- Ora adeus! tinham ouvido falar nisso e pareceu-lhes que sentiam o tal pássaro, de que já falavam os inquilinos anteriores, os quais também tinham ouvi do falar nele, não havendo no fim de contas ninguém que verdadeiramente o tivesse ouvido.- Então o senhor não sabe porque foi que eles fugiram, os úl timos que estiveram cá, faz agora quatro anos?- Ouvi falar nisso, mas por alto, não me deram pormenores.
— Eis aí está por que o senhor não acredita! A coisa foi esta: Eles eram gente pobre mas honrada: marido, mulher e uma filha de seis anos. Para o que desse e viesse dormiamtodos juntos na mesma sala. A pequenita, a quem eles não contavam nada por cau sa do medo, estava numa caminha a um lado. Dormiam com luz na lamparina, e comotrabalhavam muito de dia e estavam cansadís simos à noite, lá pegavam no sono apesar do barulho das faúlhas do fogareiro e das argoladas nas portas. Vai senão quando, à se gunda noite que passavam cá, acordam aos gritos da criança. Ti nha-se apagado a luz. Acenderam-na a toda a pressa. A porta do quarto estava fechada por dentro. Os fechos das janelas achavam-se corridos. No quarto não havia mais ninguém. Mas a roupa da cama da criança estava caída a dois ou três passos de distância do berço em que ela dormia, e a pequenita,nua, transida de medo, branca como o travesseiro e tremendo como varas verdes, disse, quando lhe chegou a fala, que teve perdida por um bocado, que sen tira umas coisas como os pés de uma galinha muito grande que se lhe pousavam na cama; que se achara depoisdescoberta e ouvira umas coisas suspiradas envoltas em soluços e beijos, mimos que metiam medo e que ela não entendia, enquanto um peito coberto de penas se lhe roçava pelo seio nu.A mãe então vestiu-lhe à pressa uns fatinhos, embrulhou-a num xaile, estreitou-a nos braços, pôs-se a dar-lhe beijos e a acalentá-la com o bafo, e saiu para ama aterrada e como doida. O homem, que era valente e destemido, cor reu a casa toda com luz e sem luz, metendo-se portodos os cantos e recantos, rangendo os dentes e picando as paredes enfurecido com uma faca de ponta que levava em punho. Não apareceu nin guém! Ninguém podia ter saído!Ninguém podia ter entrado. No dia seguinte foi levar a chave do prédio ao senhorio, dizendo-lhe que se algum dia tivesse dinheiro lhe compraria esta casa para ele mesmo a deitar abaixo a picão e a machado, para lançar o fogo a quanto pudesse arder, e calcar depoisaos pés e salgar o monte de cinzas, que ficasse no chão.
— Pois senhor, eu nenhuma dessas coisas tenho ouvido, e é es ta a segunda noite quedurmo aqui. — Gabo-lhe o gosto! E não tem medo? — Nenhum.- Por isso por aí dizem do senhor o que dizem!
— Então o que dizem por aí de mim? — Dizem, com o devido respeito, que o senhor é um alemão da Mourama e que tempartes com o demónio.
— Mais um bocadinho para trás, que eu o ajudo! — exclamou o estrangeiro, mudando detom. — Isto assim? — Ainda mais... um quase nada.., até ficar a cabeceira unida à ombreira da porta..Basta!
— Não quer mais nada?- Mais nada. Aqui tem a sua libra, e leve dali uma daquelas velas para que o avejão não apeteça na escada ao apanhá-lo às es curas.
— Não o diga a rir, que eu pela minha parte não me rio! o se nhor gosta...- A falar-lhe a verdade, gosto!
— Seu proveito! Olhe lá: quando se aborrecer com as almas que andam cá, veja sepassa aí para a casa que fica ao lado! — Bem me queria a mim parecer que a casa do lado também tem... — Se tem! Essa então é o diabo, é o próprio diabo que lá mora!O homem que viera ajudar à mudança da cama acendeu a luz e desceu a escada. O alemão ficou só, fechou a porta, e principiou a despir-se para se deitar.O diálogo que eu acabava de ouvir tinha-me impressionado singularmente e despertado em mim o mais curioso interesse.
Sem procurar directamente indagar coisa alguma, começava a entrar pelo modo maisestranho no conhecimento de factos que, posto que deturpados pela superstição ou pela ignorância, explicariam decerto o desfecho a que viemos assistir e a presença do ca dáver nasala em que o fomos encontrar.
Agora nós, meu interessante e precioso vizinho!
III
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.