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#Novelas#Literatura Portuguesa

Alves & Cia

Por Eça de Queirós (1925)

E neste pedido, que ele acompanhou de um vago sorriso, havia como uma resignação na sua desgraça, uma idéia nascente de gozar a vida, na companhia de amigos, nas preocupações do negócio, sem os desgostos que traz invariavelmente a paixão das saias. Então falou-se do Nunes. Medeiros estava contente de num caso tão sério como aquele Ter encontrado pela frente o Nunes, rapaz sério, de experiência e de honra. Estava ao princípio com medo que o Machado tivesse a idéia de nomear para padrinho aquele idiota do Sigismundo, com quem andava sempre. E isto trouxe de novo à conversa o Machado. Então, um pouco animado pelo Colares, Medeiros confessou que já tinha pregado uma ao Machado: tinha sido o amante da francesa com quem ele estivera. Então começou a falar de si, das suas conquistas: e voltou à história da véspera, quando estivera para ser apanhado na cozinha. O Carvalho também tivera uma história assim, em Tomar. Mas aí tivera de saltar pela janela, e caíra em cima duma estrumeira... O Carvalho sabia pior do que isso: um amigo dele, o Pinheiro, não o magro, o outro, o picado das bexigas, que tinha estado escondido num curral de porcos seis horas. Ia morrendo. E quando via um porco punha-se branco como a cal. Então foi entre o Carvalho e o Medeiros um desfilar de anedotas de adultérios. O Godofredo, homem casado e honesto, não tinha destas anedotas: a sua vida fora toda doméstica, sem aventuras, e escutava, bebendo o seu café aos goles, gozando aquele fim alegre de jantar, sorrindo pôr vezes.

E terminou pôr sentir um hálito quente de mocidade, dizer filosófico:

— Homem, é melhor a gente divertir-se pôr sua conta, que os outros se divirtam à nossa custa...

As oito horas aproximavam-se. Carvalho começou a calçar as luvas pretas, Então Godofredo falou em os acompanhar: meter-se-ia dentro do quarto do Medeiros – enquanto se celebrava a conferência na sala -, e eles poupavam assim o trabalho de voltar, a dar-lhe parte do resultado, à rua de São Bento. E – apesar de Carvalho Ter achado isto contra a etiqueta – terminou pôr consentir, pôr não ser coisa muito grave.

Foi-se buscar uma carruagem, e apinhados dentro dela todos três – partiram para a Estrela.

Em casa do Medeiros, o criado já acendera velas nos lustres; e eles tinham apenas subido a escada quando a campainha retiniu. Eram os outros, muito pontuais. Então Godofredo foi esconder-se no quarto: os outros entraram na sala, onde se elevou logo o rumor de vozes. No quarto às escuras, Godofredo, sem ousar chamar o criado, procurava, apalpava, sobre a mesa e o toucador, à cata duma caixa de fósforos. Não achou, mas o seus dedos encontraram um reposteiro, correuo, e viu diante uma fenda de luz numa porta, pôr trás rumor de vozes. Era, do outro lado, a sala, onde estavam a conferenciar. Adiantou-se, mas topou com um jarro, que rolou com um som de água, entornando água. Então ficou um momento imóvel, depois chapinhando umidade, foi encostar o ouvido à fechadura. Mas tinha-se feito um silêncio, que ele não compreendia. Só pôr vezes um dos amigos do Machado tossia. Que diabo estavam fazendo? Quis espreitar, mas viu, vagamente, um bocado de espelho onde se refletia a luz do candeeiro. Subitamente a luz desapareceu, houve diante dele o quer que fosse de negro, decerto as costas dum deles. Então uma voz elevou-se, era a do Medeiros; dizia “que lhe parecia concludente...” E foi logo um rumor de duas outras vozes, que se misturavam, cresciam, que ele não podia ouvir. Depois uma outra voz fria, disse muito distintamente:

— Nisto é necessário sobretudo dignidade.

(continua...)

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