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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Louvado Deus! a pena desemperrara! E, atento às páginas marcadas num tomo da História de Herculano, esboçou com segurança a Época da sua Novela - que abria entre as discórdias de Afonso II e de seus irmãos por causa do testamento de El-Rei seu pai, D. Sancho I. Nesse começo do Capítulo já os infantes D. Pedro e D. Fernando, esbulhados, andavam por França e Leão. Já com eles abandonara o Reino o forte primo dos Ramires, Gonçalo Mendes de Sousa, chefe magnífico da casa dos Sousas. E agora, encerradas nos castelos de Montemor e de Esgueira, as senhoras infantas, D. Teresa e D. Sancha, negavam a D. Afonso o senhorio real sobre as vilas, fortalezas, herdades e mosteiros, que tão copiosamente lhes doara El-Rei seu pai. Ora, antes de morrer no Alcáçar de Coimbra, o Senhor D. Sancho suplicara a Tructesindo Mendes Ramires, seu colaço e Alferes-Mor, por ele armado Cavaleiro em Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada entre todas, a Infanta D. Sancha, senhora de Aveiras. Assim o jurara o leal Rico-Homem junto do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do Hospital sustentando a candeia, agonizava, vestido de burel como um penitente, o vencedor de Silves... Mas eis que rompe a fera contenda entre Afonso II, asperamente cioso da sua autoridade de Rei - e as Infantas, orgulhosas, impelidas à resistência pelos freires do Templo e pelos Prelados a quem D. Sancho legara tão vastos pedaços do Reino! Imediatamente Alenquere os arredores doutros castelos são devastados pela hoste real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D. Teresa apelam para El-Rei de Leão, que entra com seu filho D. Fernando por terras de Portugal a socorrer as donas oprimidas". - E neste lance o tio Duarte, no seu Castelo de Santa Irenéia, interpelava com soberbo garbo o AlferesMor de Sancho I.

Que farás tu, mais velho dos Ramires? Se ao pendão leonês juntas o teu Trais o preito que deves ao Rei vivo! Mas se as Infantas deixas indefesas Trais ajura que destes ao Rei morto!...

Esta dúvida, porém, não angustiara a alma desse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rija-mente modelava. Nessa noite, apenas recebera pelo irmão do Alcaide de Aveiras, disfarçado em beguino, um aflito recado da senhora D. Sancha - ordenava a seu filho Lourenço que, ao primeiro arrebol, com quinze lanças, cinqüenta homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros, corresse sobre Montemor. Ele no entanto daria alarido - e em dois dias entraria a campo com os parentes de solar, um troço mais rijo de Cavaleiros acontiados e de frecheiros, para se juntar a seu primo, o Sousão, que na vanguarda dos leoneses descia de Alva-do-Douro.

Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o Açor negro em campo escarlate, se plantara diante das barreiras gateadas; e ao lado, no chão, amarrado à haste por uma tira de couro, reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo caldeirão polido. Por todo o Castelo se apressavam os serviçais, despendurando as cervilheiras, arrastando com fragor pelas lajes os pesados saios de malhas de ferro. Nos pátios os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza das grevas e coxotes com camadas de estopa. Já o adail, na ucharia, arrolara as rações de vianda para os dois quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa Irenéia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos, abafados no arvoredo, tararã! tararã! ou mais vivos nos cabeços, ratatá! ratatã! convocavam os Cavaleiros de soldo e a peonagem da mesnada dos Ramires.

No entanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado em beguino, de volta ao castelo de Aveiras com a boa nova de prestes socorros, transpunha ligeiramente a levadiça da cárcova... E aqui, para alegrar tão sombrias vésperas de guerra, o tio Duarte, no seu Poemeto, engastara uma sorte galante:

À moça, que na fonte enchia a bilha, O frade rouba um beijo e diz Amém!

Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de Clérigo a pompa daquela formosa sortida de armas... E mordia pensativamente a rama da pena - quando a porta da livraria rangeu.

- O correio...

Era o Bento com os jornais e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma, lacrada com o enorme sinete de armas do Barrolo - repelindo a outra em que reconhecera a letra detestada do seu alfaiate de Lisboa. E imediatamente, com uma palmada na mesa:

- Oh diabo! quantos do mês, hoje? quatorze, hem?

O Bento esperava com a mão no fecho da porta.

- É que não tardam os anos da mana Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter umpresentinho engraçado... Que seca, hem?

Mas na véspera o Manuel Duarte, na Assembléia, à mesa do voltarete, anunciara uma fuga a

Lisboa por três dias, para tratar do emprego do sobrinho nas Obras Públicas. Pois corria a Vila -Clara pedir ao Sr. Manuel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito guarda-solinho de seda branca com rendas...

(continua...)

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