Por Eça de Queirós (1901)
Oh les casquettes,
Oh les casquette-e-e-tes!...
Todos largaram os fios – proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo benedito, abrindo largamente os dois batentes, anunciou:
-Monseigneur est servi!
Na mesa, que pelo esplendor das orquídeas mereceu os louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o etéreo
poeta Dornan e aquele moço de penugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de desdobrar o guardanapo, de o acomodar regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente do relógio uma enorme luneta para percorrer o menu – que aprovou. E inclinando para mim a sua face de Apóstolo obeso.
-Este Porto de 1834, aqui em casa de Jacinto, deve ser autêntico... Hem?
Assegurei ao Mestre dos Ritmos que o “Porto” envelhecera nas adegas clássicas do avô Galião. Ele afastou, numa preparação metódica, os longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a boca grossa. Os escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço cor de milho, que espalhara pela mesa o seu olhar azul e doce, murmurou, com uma desconsolação risonha:
-Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!
Com efeito! Todas as Classes Dominantes comiam nesse momento as trufas do meu Jacinto... Mas defronte Madame de Oriol lançara um riso mais cantado que um gorjeio. O Grão-Duque, numa silva de orquídeas que orlava o seu talher, notara uma, sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de asas lustrosas, gordo e túmido de veneno: e muito delicadamente ofertara a flor monstruosa a Madame de Oriol, que, com trinado riso, solenemente, a colocou no seio. Colado àquela carne macia, duma brancura de nata fina, o lacrau inchara, mais verde, com as asas frementes. Todos os olhos se acendiam, se cravam no lindo peito, a que a flor disforme, de cor venenosa, apimentava o sabor. Ela reluzia, triunfava. Para ajeitar melhor a orquídea os seus dedos alargaram o decote, aclararam belezas, guiando aquelas curiosidades flamejantes que a despiam. A face vincada de Jacinto pendia para o prato vazio. E o alto lírico do Crepúsculo Místico, passando a mão pelas barbas, rosnou com desdém:
-Bela mulher... Mas ancas secas, e aposto que não tem nádegas!
No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu báculo!...
Ele atirou um gesto suave em que os seus anéis faiscaram:
-Para uma bomba de dinamite... Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de civilização, com um Grão-Duque no meio. Imagine uma bomba de dinamite, atirada da porta!... Que belo fim de ceia, num fim de século!
E como eu o considerava assombrado, ele bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje a única emoção, verdadeiramente fina, seria aniquilar a Civilização. Nem a ciência, nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real às nossas almas saciadas. Todo o prazer que se extraíra de criar estava esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de destruir!
Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. Mas eu não atendia o gentil pedante, colhido pôr outro cuidado – reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacara como no conto do Palácio Petrificado. E o parto agora devido era o peixe famoso da Dalmácia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! Jacinto, nervoso, esmagava entre os dedos uma flor. E todos os escudeiros sumidos!
Felizmente o Grão-Duque contava a história duma caçada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltara bruscamente do cavalo, num descampado, sem árvores. Ele e todos os caçadores param – e a galante senhora, lívida, com a amazona arregaçada, corre para trás duma pedra... Mas nunca soubemos em que se ocupava a banqueira, nesse descampado, agachada atrás da pedra – porque justamente o mordomo apareceu, reluzente de suor, e balbuciou uma confidência a Jacinto, que mordeu o beiço, trespassado. O Grão-duque emudecera. Todos se entreolhavam, numa ansiedade alegre. Então o meu Príncipe, com paciência, com heroicidade, forçando palidamente o sorriso:
-Meus amigos, há uma desgraça...
Dornan pulou na cadeira:
-Fogo?
-Não, não era fogo. Fora o elevador dos pratos que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjara, e não se movia encalhado!
O Grão duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como um esmalte mal posto:
-Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que estamos nós aqui então a cear? Que
estupidez! E pôr que o não trouxeram à mão, simplesmente? Encalhado... Quero ver! Onde é a copa?
E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que tropeçava, vergava os ombros, ante esta esmagadora cólera de Príncipe. Jacinto seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu não me contive, também me atirei para a copa, a contemplar o desastre, enquanto Dornan, batendo na coxa, clamava que se ceasse sem peixe!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.