Por Camilo Castelo Branco (1864)
Num dos dias em que Afonso estava esperando recursos para. se expatriar com a sua dor, chegou a Lisboa a fidalga de Ruivães. Afonso, desgostoso da surpresa, bem que as lágrimas o consolassem ao ver sua mãe, receou que ela viesse apostada, com o império dos prantos ou da autoridade, a demovê-lo de viajar. A santa senhora, entrandolhe na alma, sorriu benignamente e disse-lhe:
- Eu vim despedir-me de ti, meu filho, já que tu, antes de sair de tua pátria, não quiseste ir abraçar tua velha mãe, e abraçá-la talvez para nunca mais a tornares a ver.
Vim eu, sabe Nosso Senhor com que fadigas aqui cheguei. Mas sempre te devo dizer, Afonso, que eu ouvi muitas vezes contar a tuas avós que era costume em nossa geração nunca saírem da Pátria para as guerras contra a Espanha os militares ainda mancebos e os generais já encanecidos, sem irem de Lisboa ao Minho despedir-se dos seus, e ora em comum diante da cruz a que suas mães tinham orado com eles tenrinhos nos braços.
Este era o uso da nossa família antiga, meu filho, e não sei porque não há-de continuar connosco tão salutar costume. Aos pés da cruz a que eles oravam também eu orei contigo, em meu seio, e lá aprendeste de minha boca as tuas primeiras orações. Sempre pensei que o meu nome ao menos - nome doce de mãe que te estremece - seria algum tanto mais em teu coração, e esse pouco bastaria a que o meu Afonso, disposto a desterrar-se sem mais outra razão que a pouca força de alma, o não havia de fazer, sem me ir dar com antecipação o abraço que eu lhe pediria nos últimos instantes da vida.
Aqui estou eu, pois, meu filho, para te abençoar e ficar pedindo a Jesus Nosso Pai que te guie e restitua aos que te ficam chorando. Enquanto a dinheiro, Afonso, tu dirás o que queres, que pronto está. Praza a Deus que ele te não sirva de ruína ou desonra.
O desembargador, que estivera ouvindo esta afectuosa e branda censura, quando a irmã concluiu, foi direito ao sobrinho, bateu-lhe no ombro com severidade e clamou:
- Acorda, coração de pedra!... Cora de pejo, e doa-te o arrependimento, filho mau!
- Meu mano - disse a senhora -, o nosso Afonso não é mau filho, nem tem acção de que deva corar. Se a tivesse, eu não seria a mãe que sou. O que ele tem é ser infeliz; mas quem o encaminhou nesta má vereda fui eu.
- Tu, Eulália?! Como assim? - perguntou o desembargador, interdito. - Eu, eu fui quem primeiro lhe falou em Teodora e lhe preparou o coração para cativar-se da filha da minha primeira amiga da mocidade. Cuidava eu que o nascimento honrado de Teodora a dispensaria de herdar fidalguia, para que ela fosse excelente esposa de meu filho e digna de o ser do filho da mais ilustre mãe. Eu enganei-me e ele foi enganado por mim. Afonso apaixonou-se; quando lhe quisemos valer, era tarde; tardiamente aconselhei; e meu filho, se não fosse um anjo, poderia ter-me obrigado a discreto silencio, quando eu, pouco há, lhe chamei fraco.
Afonso lançou-se, em pranto desfeito, aos braços de D. Eulália; e, após curtos instantes de ofegante silêncio, exclamou:
- Eu não irei viajar, se a sua vontade é essa, minha mãe. Eu tenho em sua alma um tesouro de bens e de alegrias. Viva, minha querida mãe, o que eu mais necessito é da sua vida!
- Graças vos dou, meu Criador e Redentor! - clamou a senhora, muito comovida, com as mãos postas. - Grande é o poder que dais ao coração maternal! Eu não vos merecia tanto, meu Deus!, mas a vossa misericórdia não mede os merecimentos pela aflição com que as mães vos chamam!
E volvendo o rosto ao filho, cobriu-o de beijos e tomou-o para o seio com o fervor e mimo com que o acariciava na infância.
O magistrado e as filhas solenizaram o espectáculo chorando e rindo de contentamento.
IX
Verei se posso repetir, sem inexactidão sensível, o que Afonso de Teive me contou, com seguimento aos sucessos descritos.
"Nenhum rapaz dos meus anos", dizia ele, "exerceria tão dolorosa violência sobre o seu espirito. Jurei comigo de nunca mais repetir o nome de Teodora, e mesmo convencer minha mãe de me ter esquecido dela. Eu não sabia a que porta do Inferno fora bater, sacrificando-me puerilmente a uns pontos de dignidade que homem nenhum de anos experimentados conseguiu vingar. Em presença de parentes, e relações de minha família, atava com arames em brasa a máscara da minha agonia, contra a qual minha mãe involuntariamente dardejava insultos. Quando ela me dizia: "Estás esquecido daquela louca, meu filho!, as minhas orações foram ouvidas no Céu", ou quando meu tio, com alegres gargalhadas, me aplaudia, dizendo: "Sempre entendi que eras homem, meu rapaz!”, então a minha angústia exacerbava-se, e eu, assim que as atenções me deixavam senhor meu, ia esconder-me a chorar, a chorar com as mãos postas; e, muitas vezes, deste inútil rogar à piedade divina, erguia-me para escrever a Teodora cadernos de papel, que queimava, antes de apagar a luz, ao entrar o sol no meu quarto. Que noites aquelas!”.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.