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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Ó Ega, é você? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a vestir...

Embaraçado com estes brados de intimidade e tanta effusão, Ega ergueu a voz da sombra do corredor, gravemente:

- Não tem duvida, nós esperamos...

O Damaso insistia, á porta, em mangas de camisa, cruzando os suspensorios:

- Venha você, homem! Que diabo, eu não tenho vergonha, já estou de calças!

- Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.

A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos a cavallo, n'um vistoso caixilho de flôres em faiança: uma das colchas da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso comprára no Serra, por ter

ouvido um dia a Carlos que «em todo o quarto de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia d'amor...»

Sob estes retoques de chic, dados á pressa sob a influencia do Maia, impertigava-se a sólida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de convites para soirées. E Cruges ia examinar estes documentos, quando os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapé de velludo, teso, commodo, com o seu chapéo alto na mão.

Ao vêl-o, o bom Damaso, que se abotoára todo n'uma sobrecasaca azul, florida por um botão de camelia, atirou risonhamente os braços ao ar:

- Então esta é que é a pessoa de ceremonia? Sempre vocês têm coisas! E eu a pôr sobrecasaca... Por pouco que não lhe afinfo com o habito de Christo!...

Ega atalhou, muito sério:

- O Cruges não é de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz é delicado e grave, Damaso.

Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos seus amigos, ambos de negro, seccos, tão solemnes. E recuou, todo o sorriso se lhe apagou na face.

- Que diabo é isso? Sentem-se, sentem-se vocês...

A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado á borda d'uma poltrona baixa, junto d'uma mesa coberta d'encadernações ricas, com as mãos nos joelhos, ficou esperando, n'uma anciedade.

- Nós vimos aqui, começou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...

Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso até á risca do cabello encaracolado a ferro. E não achou uma palavra, attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.

Ega proseguiu, lento, direito no canapé:

- O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma senhora das relações d'elle na Corneta do Diabo...

- Na Corneta, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que Corneta? Nunca escrevi em jornaes, graças a Deus! Ora essa, a Corneta!...

Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico volume da Biblia de Doré.

- Aqui está a sua carta remettendo ao Palma Cavallão o rascunho do artigo... Aqui está, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a quem se devia mandar a Corneta, desde o Rei até á Fancelli... Além d'isso nós temos as declarações do Palma. O Damaso é não só o inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparação pelas armas...

Damaso deu um salto da poltrona, tão arrebatado - que involuntariamente Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas já o Damaso estava no meio da sala, esgazeado, com os braços tremulos no ar:

- Então o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim é que me pregou uma partida!... Foi elle, vocês sabem perfeitamente que foi elle!...

(continua...)

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