Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na parede uma gravura onde havia mulheres núas á beira d'agua. Não nos basta o nome... O amigo Palma, está claro, é de toda a confiança... Mas emfim, que diabo, não é natural que nós acreditassemos se o amigo nos dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragança!

Palma encolheu os hombros. Está visto que havia de dar provas. Elle podia ter outros defeitos, trapalhão não! Em negocios era todo franqueza e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e

d'escachar! Tinha a carta do amigo que lhe encommendára a piada: a lista das pessoas a quem se devia mandar a Corneta: o rascunho do artigo a lapis... - Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.

O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e então o redactor da Corneta offereceu a «bebida» rasgadamente, puxou mesmo cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos

recusaram - Carlos de pé junto da mesa onde terminára por pousar a bengala, Ega passando a outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:

- Cem mil reis são uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da Corneta apresentados na Boa-Hora, levam á grilheta!... Está claro, este caso é outro, vossê não teve intenção d'offender; mas

levam á grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no porãosinho d'um navio, com ração de marujo e chibatadas.

Desagradavel, muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre cavalheiros, e em amizade.

Palma, com a cabeça baixa, desfazia torrões de assucar dentro do copo de genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...

Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de libras, que começou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um prato. E Palma Cavallão, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo o jaquetão, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de prata sob uma enorme corôa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o monoculo sôfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do Damaso!

Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma, curta e em calão, remettendo o artigo, recommendando-lhe «que o apimentasse». Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas que deviam receber a Corneta: vinha lá a Gouvarinho, o ministro do Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna...

Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos:

- Recolha o bago, amigo Palma! Negocios são negocios, e o baguinho está ahi a arrefecer!

Então, ao palpar o ouro, Palma Cavallão commoveu-se. Palavra, caramba, se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia não tinha aceitado o artigo! Mas então!... Fôra o Eusebio Silveira, rapaz amigo, que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lérias, e que era uma brincadeira, e que o Maia não se importava, e isto e aquillo, e muita promessa... Emfim deixára-se tentar. E tanto o Salcede como o Silveira se tinham portado pulhamente.

- Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Senão estava agora entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas acabou-se! O mal não foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca da vida.

Vivamente, com um olhar, recontára o dinheiro na palma da mão: depois esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso.

Carlos guardára as cartas do Damaso, levantava já o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, n'uma derradeira averiguação:

- Então esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?...

O snr. Palma, muito lealmente, afiançou que o Eusebio lhe fallára apenas em nome do Damaso!

- O Eusebio, coitado, veio só como embaixador... Que o Damaso e eu não vamos muito na mesma bola. Ficámos exquisitos, desde uma péga em casa da Biscainha. Aqui p'ra nós, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle embuchou. Passados tempos tornámos a fallar, quando eu fazia o High-life na Verdade. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra piadita. Elle pagou a ceia, ficámos mais calhados... Mas é traste... E lá o Eusebiosinho, coitado, veio só d'embaixador.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...199200201202203...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →