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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fôra na vespera á tarde que recebera no Ramalhete a Corneta?. Elle já conhecia o papelucho, já privára mesmo com o proprietario e redactor - o Palma, chamado Palma Cavallão para se distinguir d'outro benemerito chamado Palma Cavallinho. Comprehendeu logo que se a prosa era do Palma a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da Toca... Não era natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que só lhe podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fôra-lhe simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o Palma Cavallão no seu antro. - Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.

Tanto não... Fui perguntar á secretaria da Justiça a um sujeito que esteve associado com elle n'um negocio de Almanachs religiosos...

Fôra pois ao antro. E encontrára as coisas dispostas pelas mãos habeis d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, desmanchára-se. Além d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro que lhe encommendára o artigo, por divergencia na seriissima questão de pecunia. De sorte que apenas elle propôz comprar a tiragem do jornal - o jornalista estendeu logo a mão larga, d'unhas roídas, tremendo de reconhecimento e de esperança. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a promessa de mais dez...

- É caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, não regateei bastante... E emquanto a dizer quem é o cavalheiro que encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa, que Lisboa está carissima, que a litteratura n'este desgraçado paiz...

- Quanto quer elle?

- Cem mil reis. Mas, ameaçando-o com a policia, talvez desça a quarenta.

- Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem te parece que seja?

Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no chão com a bengala. E mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da Corneta devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua de S. Francisco; alguem conhecedor da Toca; alguem que tinha, por ciume ou vingança, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...

- Estás a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.

Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o chão:

- Talvez não... Quem sabe! Emfim, nós vamos averigual-o com certeza, porque, para terminar a negociação, fiquei de me ir encontrar com o Palma ás tres horas no Lisbonense... E o melhor é vires tambem.

Trazes tu dinheiro?

- Se fôr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.

E não trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao escriptorio do Villaça. O procurador fôra a Mafra, a um baptisado. Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avô. Quando perto das quatro horas se apearam á entrada

do Lisbonense, no largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquetão de velludo coçado e calça de casimira clara collado á côxa, accendia um cigarro. Estendeu logo rasgadamente a mão a Carlos - que lhe não tocou. E Palma Cavallão, sem se offender, com

a mão abandonada no ar, declarou que ia justamente sahir, cançado já de esperar em cima diante d'um grog frio. De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli...

- Eu arranjava cá o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se os senhores querem, vamos lá p'ra cima para um gabinete, que se está mais á vontade, e toma-se outra bebida.

Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter já visto aquella luneta de vidros grossos, aquella cara balofa côr de cidra...Sim, fôra em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle farejára pelas estradas silenciosas, como um cão

abandonado, procurando Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja de saguão. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns pratos rodeavam um

galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxão ás calças:

- Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu já disse cá ao amigo Ega, em todo este negocio...

Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da bengala na borda da mesa. - Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem lhe encommendou o artigo da Corneta?

(continua...)

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