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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Tudo isto é muito engenhoso; mas, pergunto, para quem guardará ela os Dardanelos? Se não for para si somente, de que lhe serve guardá-los e defendê-los? E se for para si somente então declara a guerra ao mundo inteiro. Se a Inglaterra pode fazer passar os Dardanelos aos seus navios de guerra, é claro que os tratados que fecharam os estreitos estão despedaçados e que, portanto, todas as nações têm direito de os usar. Suponhamos que uma fragata alemã ou francesa se apresenta para passar os Dardanelos: que fará a Inglaterra? Fazer-lhe fogo? Então é a guerra contra a Europa e a América. Permitir a passagem? Mas então com que fins se estabelece como guarda dos estreitos? Se todo o mundo pode passar, é inútil que alguém os guarde. Isto parece-me lógico.

A expedição, portanto, a Galípoli parece-me cercada de tantas dificuldades e semente de tantas complicações que realmente não creio que o Governo a decida tão facilmente.

A remessa de tropas é apenas, a meu ver, um destes movimentos que às vezes faz um homem para mostrar que não dorme, que está alerta e que não será prudente meter-lhe a mão na algibeira. E a prova é que ontem o Governo, interpelado sobre se levantaria créditos suplementares para fazer face à expedição de tropas, declarou que não: que Malta e Gibraltar se achavam agora devidamente defendidas, e que, este ano, não se tornaria a falas em remessa de gente, nem havia ocasião de pedir, pelo Ministério da Guerra, fundos excepcionais. No entanto, com esta terrível questão do Oriente, a gente nunca está sossegada e, quando menos espera, no terreno mais seguro abre-se uma fenda, e de trás da parede mais inofensiva sai uma descarga.

O grande acontecimento da quinzena é a formidável insurreição operária que rebentou nos Estados Unidos. As companhias de caminhos de ferro de Baltimore e Ohio reduziram os salários dos empregados de dez por cento e aumentaram duas horas de trabalho por dia. Isto originou uma greve. As companhias recrutaram novo pessoal, mas os grevistas atacaram estes intrusos, espancaram a polícia que os defendia e, final-mente,. resistiram à Guarda Nacional. O movimento, então, espalhou-se como fogo em restolho: dez estados tomaram parte na resistência, a greve estendeu-se a cinquenta mil milhas de caminho de ferro, a população baixa tomou o partido dos grevistas e esteve-se em véspera de uma temerosa guerra civil. Houve verdadeiras batalhas entre os insurrectos e a tropa, e pode-se fazer uma ideia do desastre sabendo que só em Pittsburgh os prejuízos causados pela insurreição elevam-se a três mil e seiscentos contos!

Infelizmente as tropas dos Estados Unidos estão muito espalhadas, ocupadas sempre em escaramuças com os índios do interior; e como a maior parte dos caminhos de ferro estavam inúteis não foi possível enviá-las logo para os pontos ameaçados; por outro lado, a Guarda Nacional, composta da plebe, simpatizava por quase toda a parte com a insurreição, ou pelo menos não a atacou com energia. Felizmente, porém, os cidadãos, vendo o perigo, organizaram-se em comités, armaram-se, improvisaram-se em exército e conseguiram dominas a insurreição.

Tem-se procurado investigar as causas que quase tornaram uma greve numa guerra civil, e tem-se dito geralmente que o motivo principal foi o ódio que existe na América contra as companhias de caminhos de ferro.

Com efeito, o seu enorme poder, a sua maneira despótica de servir o público, o excesso das suas tarifas, as vergonhosas especulações que elas fazem, a pouca atenção que dão à segurança dos passageiros, as fraudes que se cometem no transporte de mercadorias – tudo isto tem-lhes alienado as simpatias da nação.

Lembram-se, decerto, que a agitação grangista teve há anos por origem a organização de uma forte resistência contra a tirania das companhias; os preços excessivos por que elas transportavam todos os produtos agrícolas, sobretudo os grãos do interior da América para os portos do Atlântico, absorvendo o melhor do produto das lavouras, chegaram a causar uma tal oposição que se falou por esse tempo em revolução da parte da população agrícola do Oeste. Não é sem razão, pois, que se pensa que as simpatias que a população mostrou pela causa dos grevistas foram devidas a este sentimento de hostilidade.

Isto, porém, não basta para explicar uma tão formidável insurreição, uma insurreição que fez milhões e milhões de prejuízos, que dispunha de artilharia, que formou campos entrincheirados e que se preparava simplesmente para sustentar uma guerra civil. A explicação, enquanto a mim, é esta: a greve foi desenvolvida e transformada em revolta pelo imenso partido socialista ou comunista.

(continua...)

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