Por Eça de Queirós (1878)
Luísa estava de pé. O olhar de Basílio corria-lhe as linhas do corpo; e com a voz muito íntima, os cotovelos sobre os joelhos, o rosto erguido para ela:
- Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria ver?
- Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. Es o meu único parente... O que tenhopena é que meu marido não esteja...
- Eu - acudiu Basílio - foi justamente por ele não estar...
Luísa fez-se escarlate. Basílio emendou logo, um pouco corado também:
- Quero dizer... talvez ele saiba que houve entre nós...
Ela interrompeu:
- Tolices! Éramos duas crianças. Onde isso vai!
- Eu tinha vinte e sete anos - observou ele, curvando-se.
Ficaram calados, um pouco embaraçados. Basílio cofiava o bigode, olhando vagamente em redor.
- Estás muito bem instalada aqui - disse.
Não estava mal... A casa era pequena, mas muito cômoda. Pertencia-lhes.
- Ah! Estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta de ouro?
E indicava o retrato por cima do sofá.
- A mãe de meu marido.
- Ah! Vive ainda?
- Morreu.
- É o que uma sogra pode fazer de mais amável...
Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéu.
- Já? Onde estás?
- No Hotel Central. E até quando?
- Até quando quiseres. Não disseste que vinhas amanhã com o rosário?
Ele tomou-lhe a mão, curvou-se:
- Já se não pode dar um beijo na mão de uma velha prima?
- Por que não?
Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão doce.
- Adeus! - disse.
E à porta com o reposteiro meio erguido, voltando-se:
- Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, como se vai isto passar?
- Isto quê? Vermo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?
Ele hesitou, sorriu:
- Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Amanhã, hem?
No fundo da escada acendeu o charuto, devagar.
- "Que bonita que ela está!" - pensou.
E arremessando o fósforo, com força:
- "E eu, pedaço de asno, que estava quase decidido a não a vir ver! Está de apetite! Está muitomelhor! E sozinha em casa; aborrecidinha talvez!..."
Ao pé da Patriarcal fez parar um cupé vazio; e estendido, com o chapéu nos joelhos, enquanto a parelha esfalfada trotava:
- "E tem-me o ar de ser muito asseada, coisa rara na terra! As mãos muito bem tratadas! O pémuito bonito!"
Revia a pequenez do pé, pôs-se a fazer por ele o desenho mental de outras belezas, despindoa, querendo adivinhá-la... A amante que deixara em Paris era alta e magra, de uma elegância de tísica; quando se decotava viam-se as saliências das suas primeiras costelas. E as formas redondinhas de Luísa decidiram-no:
- A ela! - exclamou com apetite. - A ela, como São Tiago, aos mouros!
Luísa, quando o sentiu embaixo fechar a porta da rua, entrou no quarto, atirou o chapéu para a causeuse, e foi-se logo ver ao espelho. Que felicidade estar vestida! Se ele a tivesse apanhado em roupão, ou malpenteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pó-de-arroz. Foi à janela, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda nas casas fronteiras. Sentia-se cansada. Aquelas horas Leopoldina estava a jantar já, decerto... Pensou em escrever a Jorge "para matar o tempo", mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do espelho, olhando-se muito, gostando de se ver branca, acariciando a finura da pele, com bocejos lânguidos de um cansaço feliz. - Havia sete anos que não via o primo Basílio! Estava mais trigueiro, mais queimado; mas ia-lhe bem!
E depois de jantar ficou junto à janela, estendida na voltaire, com um livro esquecido no regaço. O vento caíra e o ar, de um azul forte nas alturas, estava imóvel; a poeira grossa pousara; a tarde tinha uma transparência calma de luz; pássaros chilreavam na figueira brava; da serralharia próxima saia o martelar continuo e sonoro de folhas de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de cor de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. Depois tudo se cobriu de uma sombra difusa, calada e quente, com uma estrelinha muito viva que luzia e tremia. E Luísa deixara-se ficar na voltaire esquecida, absorvida, sem pedir luz.
- "Que vida interessante a do primo Basílio!" - pensava. - "O que ele tinha visto!" Se ela pudessetambém fazer as suas malas, partir, admirar aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! Como desejaria visitar os países que conhecia dos romances - a Escócia e os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palácios trágicos; aportar às baias, onde um mar luminoso e faiscante morre na areia fulva; e das cabanas dos pescadores de teto chato, onde vivem as Grazielas, ver azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria decerto; eram pobres; Jorge era caseiro, tão lisboeta!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.