Por Eça de Queirós (1870)
A outra voz, insinuante e meiga, dizia numa vaga melodia deSereia: — Come, se tens fome, estúpido! Estás com medo do papão, ma luco?... Põe os olhos nesse lacre: não será um penhor seguro da pu reza do líquido que ele tapa a marca desse abonado sinete? Não vês hermeticamente fechada, chumbada e garantida com os mais especiais lavores a lata dessas sardinhas pescadas nas costas de França e cozinhadas há seis meses em Marselha? Não vês religio samente grud ada e selada com as etiquetas insuspeitas esagradas da acreditada casa Chevet essa terrina de foie gras? Supões acaso, ó parlapatão, quemeio mundo se conjurasse para te arrancar essa vida inútil? Come, bebe e dorme; aproveita nos braços da sabedoria as horas gostosas da solidão com que te brinda o acaso. Deleita-teconversando depois contigo e repousando-te no seio tépido da melancolia, dessa deliciosa fada que só aparece evocada pelos namorados e pelos solitários, e que é na terra a irmã maisnova da tristeza, a irmã gâtée, a irmã feliz!Eu, no entanto, havia cortado a caixa das sardinhas, desgru dado a tampa da terrina e desarrolhado uma garrafa de vinho e uma garrafa de soda que misturara num copo.Pus-me, por fim, a comer caiu apetite, com valor, com delícia, com uma espécie de bestialidade voluptuosa, sentindo vagamente adejarem em volta de mim os espíritosbenéficos do cárcere que bafejaram as prisões de Sílvio Pélico.
É singular isto: achava-me bem! Depois da ceia acendi um charuto e comecei a passear no quarto, dizendo comigo:- Visitemos o país!
Na parede que ficava ao lado da porta por onde se entrava ha via uma outra porta.Examinei-a. Estava apenas segura com um ferrolho exterior. Afastei a cama encostada à parede em que se achava esta porta e abri-a.
Era um armário na espessura do muro, largo, profundo, divi dido a meia altura por umprateleiro espaçoso e sólido.
Ocorreu-me que ao fundo do armário haveria talvez um tabi que delgado através do qual me seria possível escutar o que se passasse na casa contígua.Penetrei no armário, estendi-me no prateleiro, escutei. Do outro lado havia um ruído volumoso e maciço. Parecia que se estava arrastando um móvel pesado e grande.O fundo do armário era efectivamente formado por um tapamento franzino. Era possível que tivesse havido primitivamente uma porta no lugar em que se fizera o armário. Havia um ponto em que a argamassa caíra, e eu via diante de mim um pedaço de ripaatravessado diagonalmente e descamado da cal.
Peguei no saca-rolhas e no lugar indicado fui esburacando devagarinho eprogressivamente o cimento do muro, até operar um orifício imperceptível, pelo qual me era dado ver a luz e ouvir distintamente o que se dizia do outro lado.
Eis aqui o que às onze horas e meia da noite se estava passan do no quarto contíguoàquele que me serve de prisão:
II
Havia dois homens que arrastavam um grande leito de ma deira do lugar em que eleestava para ao pé da parede que divide a casa em que eu me acho daquela em que se passava a cena que descrevo, e exactamente para junto do lugar em que eu acabava de abrir o buracoque me servia de olho e de orelha.
Um desses homens dizia assim: — Será o que muito bem quiser, mas eu é que não torno a vir cá a andar aostrambolhões com os móveis à hora da meia-noite.
— Há-de ter muita razão de queixa! — tornava o outro. — Dou-lhe uma libra para meajudar, quero saber se não é melhor isto do que estar lá em baixo estendido ao pé da manjedoura, à espera que chegue o trem para ir tratar dos cavalos, a enfastiar-se, sem ga nhar vintém.
Aquele que dizia estas palavras, conquanto se expressasse claramente, tinha todos os defeitos de pronúncia que distinguem o estrangeiro que fala português. Pela aspiração especial de certas vogais e pela contracção labial com que pronunciava os aa, era por certoalemão.
O que primeiramente falara, prosseguiu: — É bom lucro... Parece que é bom lucro, mas eu para mim não o quero. E olhe quenão encontra seis homens aqui na rua que en trem cá de noite, a estas horas, ainda que os pese a ouro!- Para mudar uma cama!
— Não é pela cama, é por ser a casa que é! — Ora adeus! que tem a casa?!...- Não tem nada! É uma graça! Ela é de tal casta que o senho rio teve-a quatro anos por alugar, foi sempre baixando na renda e por fim dava-a já de graça e não tinha alma viva quelhe pegasse! A última gente que cá morou esteve só duas noites, e foi-se da qui tolhida com as coisas que lhe apareceram e com as trapalha das que ouvia. Cruzes, demónio! cruzes, diabo!- Petas! histórias da vida!
— O senhor! Não me diga a mim que são petas! Pois eu não vi a família!... Não estivecom eles!? Fugiram de noite, fugiram à se gunda noite que dormiram cá, estarrecidos de medo.
— Então que viram eles?- Eles não viram nada.
— Então aí tem. — Não viram, mas ouviram.- Haviam de ouvir boas coisas!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.