Por Eça de Queirós (1925)
— Mas o Nunes provou-me que não. Tinha lido as cartas ele também, o Machado contara-lhe tudo, e depois de ter combinado, pensado, chegara a este resultado: que não passara de namoro.
Houve um silêncio na sala. Godofredo passeava vivamente, com as mãos nos bolsos. Carvalho examinava vagamente em quadro representando Leda e o cisne. De repente, Godofredo parou, exclamou, com uma voz surda, espaçando as palavras:
— Aí nesse sofá, os vi eu abraçados um ao outro... Que diz a isto o Nunes?
— Esse é que é o único ponto – exclamou Medeiros. – Esse ponto é que se não pode negar porque tu viste, com os teus olhos. Mas o Machado explicou ao Nunes. E o Nunes explicou-nos a nós. Era uma brincadeira, era a rir, era a fazer cócegas...
— E a carta, que tarde a de ontem? – exclamou Godofredo.
— Disse o Nunes que naturalmente se refere a um passeio que vocês deram a Belém. Vocês foram a Belém?
Godofredo pensou um momento. Sim, tinham ido a Belém. Era verdade que tinham todos três ido a Belém.
— Então aí tens. Era a lembrar o prazer de terem ido todos, a patuscada, a passeata, etc...
— De modo que – exclamou Godofredo – fica tudo nisto... Não há nada. Tenho de tragar a afronta.
Medeiros ergueu-se indignado. Ora essa, então pôr quem o tomava ele? Tinha ou não Alves posto a sua honra nas mãos dele e do Carvalho? Tinha. Então não podia supor que eles, seus amigos, o deixassem na lama, miseravelmente...
— Mas – murmurou Alves.
— Mas que? Está claro que te hás-de bater. Foi o que se decidiu. Não há motivo para que seja à pistola, porque foi um simples namoro. Mas como o sr. Machado não tem direito a namorar a tua mulher, há todo o motivo para que seja à espada, um duelo mais simples... Vamos nos encontrar logo com eles em minha casa, às oito horas, e combinar tudo.
— E não temos muito tempo a perder – disse Carvalho puxando o relógio – porque são seis e meia, ainda temos de jantar. Eu estou a cair...
Godofredo ofereceu-lhes então que jantassem lá. De resto ele tinha calculado que apareceriam à hora do jantar e mandara preparar um bocado de assado a mais.
— Não haverá mais que um bocado de assado – disse ele -, mas enfim, em campanha tudo basta... e nós estamos em guerra.
Era a primeira vez que sorria desde a véspera. Mas aquela companhia dos seus amigos ao jantar alegrava-o, evitando-lhe a solidão que ele temia.
E o jantar foi alegre. Tinha-se combinado que não falariam do duelo, nem do caso: mas logo desde o cozido, em todos os momentos que Margarida não estava presente, voltavam a essa idéia, pôr frases curtas e alusões vagas. Pôr fim, Godofredo disse à Margarida que não voltasse sem que ele tocasse a campainha: e então a conversação não cessou mais. Godofredo contou como conhecera Ludovina, e o seu namoro, e o dia do casamento. Depois falou do Machado, mas já sem cólera, chegando mesmo a dizer que era um rapaz brioso. Era ele que o ia buscar ao colégio quando o Machado era pequeno: e às vezes levava-o ao teatro. E estas recordações enterneciam-no, terminou pôr engolir um soluço, disse que se não falasse mais em semelhante coisa. Tocou a campainha, a Margarida trouxe o assado. Houve um curto silêncio, o Medeiros gabou o vinho de Colares. Carvalho, a respeito do Colares, que ele costumava beber em Cabo Verde, lembrou um caso de duelo em que ele lá fora testemunha: e apenas Margarida saiu, contou-o logo: era parecido com o do Alves, também pôr causa duma mulher, mas essa, preta. Isto parecia incrível ao Medeiros. Mas Carvalho gabou a preta, com o olho brilhante:
Em a gente se acostumando, não quer senão daquilo... A preta é grande mulher.
— Mas que diabo, não falemos mais de mulheres – disse Godofredo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.