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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Varreram-se-me da memória os nomes, e só me lembro que levavam cara de terem bebido em jejum à saúde da noiva. O lapuz do noivo queria montar à Marialva; mas o ginete, quando chegou à Cárcova, festejou a suciata com quatro coices que iam apanhando os jarretes da morgada, como amostra dos que ela há-de levar do marido.

Tinhas a corte celestial a pedir por ti. Afonso! Quando te deu na veneta ser marido de Teodora, enquanto a mim tinhas lido o folheto que reza de uma que era formosa e sábia. Vai às arcadas do Terreiro do Paço, que lá a encontras pendurada no cordel do livreiro cego. Teodora por Teodora, antes a do papel do mata-borrão, que estoutra é um borrão da tua mocidade, que felizmente o tempo há-de gastar.

Agora é tempo de te dizer que tens uma prima e eu tenho uma filha. Se a queres esposar. vem quando estiveres farto da capital. Está senhora e foi educada como as senhoras da nossa raça. Aos meus olhos de pai. Mafalda parece-me gentil e esbelta. Em palavras é discreta como se os cabelos, em vez de puro ouro, lhos tivesse embranquecido a experiência. Em acções creio que nenhuma ainda praticou de que me não deva honrar, e bendizer a mãe que a educou, e o sangue ilustre que lhe forma o coração.

Tua mãe compraz-se na minha resolução. Vem gozar as delicias puras de uma mocidade bem encaminhada e recebe a bênção de teu tio Fernão de Teive.

Lidas estas canas, Afonso levou o lenço ao suor da testa e às lágrimas, que lhe caíram a quatro. o tio, já avisado do sucesso de Braga, discursou largamente, de pitada no dedo e os óculos montados, na mais grave das atitudes. Afonso diz que o não ouvira longo tempo e o abominara depois que o ouvira.

Quisera o desembargador levá-lo consigo na traquitana; mas o moço rebelou-se arrogantemente contra as ordens do velho, já irritado da pertinácia do sobrinho em ficar, terceira noite, fora de casa. Afonso internou-se de corrida entre o arvoredo, num ímpeto de desesperação ou loucura. O magistrado deixou-o e foi para Lisboa, de onde participou à irmã o resultado das canas e aproveitou o ensejo para vaticinar que Afonso ia a caminho da demência a passos de gigante.

Disse-me Afonso que, naquela noite, fora ter a Mafra; e repousara, na madrugada, encostando a cabeça a um degrau do templo. Ao nascer do Sol, quis agitar-se em nova caminhada; mas o cavalo, prostrado de fadiga e fome, resistiu impassível à espora. Esta contrariedade, que faria rir o leitor, pungiu acerbamente Afonso. A mais trágica desventura tem uma fisionomia cómica, se bem lha procuramos. Escusável seria o riso de quem observasse o cavaleiro, roxo de febre e cólera, esporeando os ilhais do esbuxado cavalo, decepado de jejuns e correrias árabes pelos descampados, onde seu dono acalmava as vertigens da paixão! Que funesta sorte a do irracional que dá em poder de tal amo! O infeliz, privado do dom da palavra, nem sequer pode questionar com o dono a supremacia da sua racionalidade!

Enquanto o cavalo reparava as forças na manjedoura, Afonso escreveu a sua mãe, pedindo-lhe recursos para se ausentar de Portugal e licença para se demorar no estrangeiro até poder regressar esquecido de Teodora. Escreveu também ao tio Fernão, lastimando-se de não poder aceitar a felicidade das mãos de sua prima Mafalda.

Feito o propósito de viajar, o frenesi descaiu em sombria mas serena tristeza.

O céu negro abria-se-lhe, a instantes, em relâmpagos de luz. Atirava ele com a alma ao futuro, ao vago, ao sonho indelineável, e retraía-se com ela a uns rápidos assomos de alegria, que não eram senão rebates de esperança, esperanças tão amigas de dezoito anos! Viajar era-lhe já uma ânsia; cria-se resgatado assim das penas, e sé assim, que nenhum outro lenitivo humano lhe poderia já valer.

Embevecido nesta esperança, voltou para Lisboa e recolheu-se tranquilo a casa do desembargador. Ninguém falou em Teodora. As primas forcejavam por distraí-lo sem mostrarem propósito disso. O velho proferia máximas, umas de Séneca, outras dele, acerca das paixões, abstendo-se, porém, de apontar o alvo onde iam bater as sentenciosas frechas. Afonso, naqueles oito dias, pudera recopilar máximas e provérbios com que, no decurso de longa existência, regesse as suas acções e repartisse ciência de bem viver por todas as pessoas transviadas do caminho direito; porém, confessa o inatento sobrinho do apotegmático desembargador que apenas se recorda de que eram em latim as máximas de Séneca, e quase latinas as do tio, em virtude do estilo graúdo e filintiano em que as compusera. O certo foi que Afonso não aproveitou nada, nem mesmo o gosto da latinidade.

Mais vernáculo mentor lhe estava reservado, como ao diante se verá.

(continua...)

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