Por Camilo Castelo Branco (1862)
— De certo não caso; morro, e morro contente, mas não caso.
— Nem ele a quer. A senhora é indigna de Baltasar Coutinho. Um homem do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que fala de noite aos amantes nos quintais. Vista-se depressa, que vai para um convento.
— Prontamente, meu pai. Esse destino lho pedi eu muitas vezes.
— Não quero reflexões. Daqui a pouco apareça-me vestida. Suas primas esperam-na para a acompanharem.
Quando se viu sozinha, Teresa debulhou-se em lágrimas, e quis escrever a Simão. Aquela hora quem lhe levaria a carta? Apelou para o retábulo da Virgem, que ela fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos que a protegesse, e desse forças a Simão para resistir ao golpe, e guardar-lhe constância através dos trabalhos que sucedessem, Depois vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o tinteiro, o papel e o macete de cartas de Simão. Saiu do seu quarto, relanceando os olhos lacrimosos para o painel da Virgem, e, encontrando o pai, pediu-lhe licença para levar consigo aquela devota imagem.
— Lá irá ter — respondeu ele. — Se tivesse tanta vergonha como devoção, seria mais feliz do que há de ser.
Uma das primas, irmãs de Baltasar, chamou-a de parte. e segredou-lhe:
— Ó menina, estava ainda na tua mão dares remédio à desordem desta casa...
— Qual remédio?! — perguntou Teresa com artificial seriedade.
— Diz a teu pai que não duvidas casar com o mano Baltasar...
— Primo Baltasar não me quer — replicou ela, sorrindo.
— Quem te disse isso, Teresinha?
— Disse-mo meu pai.
— Deixa falar teu pai, está desatinado com o amor que te tem. Queres tu que eu lhe fale.
— Para quê?
— Para se remediar deste modo a desgraça de todos nós.
— Estás a brincar, prima! — redargüiu Teresa. — Eu hei de ser tua cunhada quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo outro homem. Queria viver para ele; mas, se quiserem que eu morra por ele, abençoarei' todos os meus algozes. Podes dizer isto ao primo Baltasar e dize-lho antes que te esqueça.
— Então? Vamos! — disse o velho. — Estou pronta, meu pai.
Abriu-se a portaria do mosteiro. Teresa entrou sem uma lágrima. Beijou a mão de seu pai, que ele não ousou recusar-lhe na presença das freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regozijo; e, ao fechar-se a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:
— Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.
As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra "coração" uma heresia, uma blasfêmia proferida na casa do Senhor.
— Que diz a menina?! — perguntou a prioresa, fitando-a por cima dos óculos, e apanhando no lenço de Alcobaça a destilação do esturrinho.
— Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.
— Não diga — minha senhora — atalhou a escrivã.
— Como hei de dizer?
— Diga: "nossa madre prioresa".
— Pois sim, nossa madre prioresa, disse eu que me sentia aqui muito bem.
— Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir bem — tornou a nossa madre prioresa.
— Não?! — disse Teresa com sincera admiração.
— Quem para aqui vem, menina, há de mortificar o espírito, e deixar lá fora as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de noviças, a quem compete encaminhá-la e dirigi-la.
Teresa não redargüiu: fez um gesto de respeito à mestra de noviças, e seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.
A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Teresa que era sua hóspeda enquanto ali estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pai escolheria aquele convento ou outro.
— Que importa que seja um ou outro? — disse Teresa.
— É conforme. Seu pai pode querer que a menina professe em ordem rica das bentas ou bernardas.
— Professe! — exclamou Teresa. — Eu não quero ser freira aqui, nem noutra parte.
— A senhora há de ser o que seu pai quiser que seja.
— Freira?! A isso não pode ninguém obrigar-me! — recalcitrou Teresa.
— Isso assim é — retorquiu a prioresa — mas, como a menina tem de noviciado um ano, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não há vida mais descansada para o corpo, nem mais saudável para a alma.
— Mas a nossa madre — tornou Teresa, sorrindo, como se a ironia lhe fosse habitual — já disse que a estas casas ninguém vem para se sentir bem...
— É um modo de falar, menina. Todos temos as nossas mortificações e obrigações de coro e de serviços para que nem sempre o espírito está bem disposto. Ora vês aí. Mas, em comparação do que lá vai pelo mundo, o convento é um paraíso. Aqui não há paixões, nem cuidados que tirem o sono, nem a vontade de comer, bendito seja o Senhor! Vive-mos umas com as outras como Deus com os anjos. O que uma quer querem todas. Más línguas é coisa que a menina não há de achar aqui, nem intriguistas, nem murmurações de soalheiro. Enfim, Deus fará o que for servido. Eu vou à cozinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que sabe dizer melhor que eu o que é a virtude nestas santas casas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.