Por Camilo Castelo Branco (1869)
Ângela, doida deste desafeto, granjeou imprudentemente os serviços duma criada, a quem entregou carta fechada para Joana. O conteúdo eram puerilidades, senão antes umas espertezas inocentes. Enviava ela duas folhinhas no formato das suas Esperanças, e pedia que fossem reunidas às outras. O dizer deste suplemento era já triste e queixoso: chamava-lhes ela aos pensamentos; Esperanças que fenecem. Se Francisco não estivesse presente, a irmã esconderia os papelinhos e iria pedir misericordiosamente à fidalga que se esquecesse de seu irmão, e empregasse amor onde lhe fosse permitido esperar felicidades.
Francisco mandou esperar a criada, e escreveu a primeira carta. Depois, a Segunda, a terceira, até à duodécima, que era o caderno, cujo paradeiro foi às mãos convulsas de D. Beatriz.
Ate-se agora o fio da história, no lance de D. Beatriz mandar que a sobrinha se preparasse para entrar no convento.
XII A FUGA
A surpresa tolheu a reflexão.
Ângela, pela primeira vez, deu ares de família. Contavam-se arrojos de D. Maria d’Antas, em anos verdes, quando o pai lhe impunha observância das leis do decoro, em desacertos amorosos. Saiu-se a filha de Simão de Noronha com um dos atrevimentos não comuns enquanto a sociedade assusta, e o coração mulheril não desteme os efeitos do escândalo.
Ouvida a ordem, ao anoitecer, entrou no seu quarto, onde se deteve até às dez. o silêncio da casa era completo, quando ela abriu a janela mais rente da rua, saiu e encaminhou-se a casa de Joana.
A irmã de Francisco, que tanto o instigara a sair para o Porto, naquele dia, estava, a essa hora, chorando saudosa dele. Quando ouviu bater à porta, alvoroçou-se cuidando que o irmão desandara por não poder vencer-se. Perguntou, conheceu a voz trêmula da fidalga, expediu um grito, e chamou o marido. Ângela, apenas entrou, disse entre risonha e espavorida:
― Fugi!
― Fugiu, Santo Deus! – exclamou Joana. – vossa excelência fugiu, senhora D. Ângela?! Não me diga isso, por quem é!...
― Fugi, deveras, pois não vê, minha amiga? Olhe... ninguém veio comigo... Se eu não fugisse, amanhã havia de entrar no convento forçosamente, que assim mo disse minha tia...
― E agora, minha senhora? – atalhou afligidíssima a irmã de Francisco.
― Agora o quê?
― Que tenciona a menina fazer?
― Fico nesta casa – respondeu serenamente D. Ângela, apertando nas suas a mão de Joana.
― Mui pobre casa; mas ela aqui está, e nós para servirmos a vossa excelência – disse José Maria respeitosamente.
― Mas que infelicidade, minha senhora, que infelicidade! – exclamava a trêmula irmã do acadêmico, enquanto Ângela relançava em volta de si os olhos indagadores.
― Não te aflijas assim, Joana! – disse tranqüilo o merceeiro. – Maior infelicidade seria que a fidalga não tivesse pessoas que a respeitam como nós.
― Seu irmão? – perguntou Ângela com veemência, como se a salteasse o pensamento dele ter saído para longe.
― Está já no Porto, minha senhora – respondeu José Maria, visto que a mulher não respondia.
― Foi para o Porto?! – murmurou a filha de D. Maria d’Antas empalidecendo e esbugalhando os seus olhos negros.
― Foi, minha senhora; pedi-lhe eu muito que fosse – tartamudeava Joana – cuidando que, saindo ele daqui, se acabavam as inquietações de vossa excelência e de sua tia.
Ângela pendeu a face para o seio, e quedou-se largo espaço confusa, sem atender às sensatas observações de José Maria.
― Que ingratidão! – murmurou ela; e, levantado-se de saldo, disse: - Bem... não vim aqui fazer nada; irei para o convento, irei para onde quiserem. Meus amigos, abram-me a porta, que eu vou outra vez para casa; mas digam ao senhor Costa que eu vim procurá-lo numa hora de muito sofrimento, que o não encontrei, e que saí desenganada...
― Ó minha senhora, vossa excelência é injusta com o meu pobre irmão... – exclamou Joana, com as mãos postas, e inclinada quase em joelhos.
Neste em meio, soaram na porta redobrados golpes. Estremeceram todos.
José Maria foi à janela, e as duas senhoras seguiram-no.
― Está cá a senhora D. Ângela? – perguntou uma voz de mulher esbofada.
― É Vitorina... – disse a fidalga. – Estou, Vitorina, estou aqui... Que é?
― Ó minha senhora – disse a criada ansiadíssima. – Deram fé que vossa excelência fugiu. Sua tia levantou-se a chamar os criados. Não tardam aí... Olhe que a levam à força, e sua tia disse ao João Alho que se pilhasse às mãos o Sr. Francisco, o fizesse em postas.
Volte depressa, que, se eles cá chegam a vir, há desgraça de maior.
― Eu vou – disse atribulada Ângela – eu vou; que não vão eles fazer-lhes mal, meus amigos. Adeus, adeus, que não nos tornamos a ver... – E, abraçando Joana, balbuciou coberta de lágrimas: – Diga a seu irmão que lhe perdôo, que fez bem em fugir, senão talvez o matassem...
E desceu pressurosamente as escadas.
Logo que saíram à rua, ouviram a estropeada de criados, que eram muitos, acaudilhados pelo capelão, sujeito de má rês.
― Vamos por outro lado – disse Vitorina receando o encontro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.