Por Fernando Fidelix Nunes (2026)
Nathália Coelho: Essa pergunta é muito boa. Porque eu me dei conta dessas influências só depois de 2 anos de publicação do livro, quando elaborava meu projeto de pós-doutorado. Olhei pro livro, preparando uma fala para a Semana de Letras na UDF, se não me engano, e pensei: "caramba, essa minha identidade já estava dando sinais aqui e eu nem sabia". Mas as coisas são assim mesmo, ocorrem em movimentos circulares cada vez mais apertados e você vai se entendendo, mais profundamente, por meio de repetições. À época da escritura de “Avenidas de Dentro”, eu estava escrevendo a minha tese de doutorado. Meu tema de pesquisa ainda era a obra da Eliane Brum, com foco para o romance “Uma/Duas” e como ele se relacionava com a obra híbrida dela. Nesse mesmo período, também entrei como professora substituta no Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. E lá, me envolvi num grupo de pesquisa que trabalhava com Alfabetização Midiática. De um lado, por parte da minha tese, eu já trabalhava com a instância da palavra, e como ela poderia se deslocar do corpo, e ser um elemento de manipulação e desordem (como a pós-verdade, o ecossistema desinformativo, as "fake news". Eliane Brum trabalhava com o conceito de "autoverdade"). De outro, na FAC, comecei a lidar com o mesmo tema, pela perspectiva dos estudos teóricos do jornalismo. E... enquanto escritora, o uso exacerbado das tecnologias digitais, me suscitaram escrever sobre elas em forma de poemas, porque eu vivi aquilo na pele. Toda a confusão mental de "uma, duas, três lives", como eu falo em um dos textos, a necessidade de fazer VT (Sigla de videotape, comum nos bastidores profissionais do telejornalismo, de onde vim, também), no sentido de que todo mundo queria aparecer... me pareceu contrastar muito com a quietude e silenciamento que a pandemia pedia de mim enquanto ser humano, uma espécie ameaçada e que é ela mesma a ameaça da Terra. Portanto, Fernando, hoje eu entendo que eu não tinha consciência desse movimento entre as minhas identidades de poeta e pesquisadora, mas isso me diz muito da unicidade que existe em mim e acaba se expressando por diversas vias. Acho que foi um desdobramento natural de tudo que vivi, observei, estudei, percebi que poderia contribuir com reflexões, tanto em forma poética quanto acadêmica e profissional. Gosto muito de pensar nisso e obrigada por me fazer pensar. Então, sim, meu projeto estético pode se alinhar com meu projeto acadêmico, uma vez que eles têm a mesma origem, que é a minha inquietação enquanto ser humano. Eu tenho um vídeo no meu Instagram em que falo sobre isso (https://www.instagram.com/reels/DAsAHjPMvvX/). Além de tudo que eu disse, eu queria destacar também que essas influências vão ocorrendo dentro da gente se nos darmos conta. À Época do doutorado, eu também li um livro chamado "A Crítica Literária e os Críticos Criadores no Brasil", de José Luis Jobim, porque a própria Eliane Brum se enquadra nesta categoria. Também trabalhei em sala de aula na disciplina de Jornalismo Cultural. Então sim, esse intercâmbio de ideias, também acontece em mim.
Fernando Fidelix Nunes: Durante a sua obra, há alguns poemas que não estão no índice geral do livro. Ademais, esses textos possuem um design e uma tipografia diferentes do restante da obra e que lembram o design de algumas postagens provocadoras de reflexões em redes sociais, especialmente no Instagram. Por que você não os inseriu no índice com um título? Como se deu o processo de encaixar esses textos no decorrer da obra?
Nathália Coelho: Os textos que estão entre os poemas são como pílulas poéticas. À época, não necessariamente as intitulei enquanto um poema completo. A ideia surgiu como que para seguir a mesma forma de expressão do meu primeiro livro de poemas, “A rua esquerda”. Nele, a cada dois poemas, se não me engano, eu coloco uma meteorologia poética. Como um respiro entre a densidade dos textos maiores. Em “Avenidas de Dentro”, foi assim também. Aquelas pílulas poéticas são respiros ao leitor, seguem uma mesma proposta das meteorologias e o design e a tipografia são diferentes propositadamente, porque ali, além da palavra, a forma fala também, enquanto peso, leveza, fugacidade, perenidade. Então, de fato, eles não foram feitos para constarem no sumário. É quase que um recado meu ao leitor, uma confidência, talvez um formato adaptado dos poucos caracteres das redes sociais para o livro. Não tinha pensado nisso, mas acho sua interpretação super plausível. Até porque, por exemplo, muitos deles nascem nesse ambiente online. Assim como as meteorologias poéticas de “A rua esquerda”, que eram publicadas primeiramente no Twitter (X), ou no Facebook, no percurso para o trabalho. E depois foram para o livro.
(continua...)
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