Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Eu conheço – ainda que as minhas tentativas literárias têm recebido do país um acolhimento remunerador – que me escasseiam as qualidades de Estilo e de Critica, para escrever a história complexa deste grande homem: seria necessário, para bem o pintar, um Plutarco, ou, nos tempos mais modernos, um Victor Cousin (que ele tanto admirava), ou ainda, contemporaneamente, um Herculano, um Rebelo, um Castilho – um desses astros que se destacam no céu da nossa Pátria, com uma luz de serenidade eterna. Eu sei, além disso, não serem necessárias apoteoses biográficas para que o pais reconheça o homem que perdeu no Conde d'Abranhos. A dor de toda a Lisboa devia ser bem grata à sua alma. Sim, Srª Condessa, devia ser bem grato ao seu espírito imortal, já arrebatado à serenidade dos eleitos, ver, cá em baixo, nesta Capital que ele amava, nestas ruas que ele tão bem conhecia, a imponente cerimónia do seu préstito fúnebre: o camarista que representava S. M. El-Rei; o presidente do conselho que, apesar da firmeza da sua vontade de ferro, não podia conter as lágrimas que lhe humedeciam as pálpebras; a deputação dos meninos do Asilo de S. Cristóvão, por quem ele tomava um interesse tão delicado e a quem chamava, com aquela graça que nas horas felizes era o encanto da sua conversa, – «os meus pintainhos»; a deputação das duas casas do Parlamento, levando à frente o orador da maioria, o poeta maravilhoso dos «Sonhos e Enleios», que me disse estas palavras memoráveis que ficarão na História: – «Vimos em nome da Viúva...» – E como eu lhe perguntava, admirado: – «Em nome da Srª Condessa?» – «Não – respondeu o poeta – em nome da Tribuna, viúva do Génio!» – E enfim, fechando o préstito, vinte carruagens particulares, vinte e cinco da companhia e algumas de praça – entre as quais notei com admiração alguns operários da Sociedade «Probidade Cristã», que ele tanto ajudara a formar, e que vinham pagar um tributo derradeiro ao homem que, mais que nenhum em Portugal, amou, protegeu e educou o operário! Ali vinham, quatro numa tipóia, nos seus casacos dos domingos, as lágrimas nos olhos, a fé no peito, levar com saudade à sepultura aquele que um dia exclamara na Câmara dos Deputados (sessão de 15 de Agosto, «Diário do Governo» nº 2758): – «Não podemos dar ao operário o pão na terra, mas obrigando-o a cultivar a fé, preparamos-lhe no Céu banquetes de Luz e de Bem-aventurança!»

E quem negará aí que não seja esta a verdadeira maneira de promover a felicidade das classes trabalhadoras?

Mas não foram estas as únicas demonstrações de luto social. A Imprensa – a que ele se orgulhava de pertencer, e a que chamava, com tanta elevação, o «porta-voz do progresso» – dedicou-lhe páginas que, pela unanimidade do sentimento, e até, se me é permitido descer a estes detalhes, o tipo grande dos artigos, entre tarjas negras, lembravam os funerais de um Rei.

As musas mesmo o choraram, e quem esquecerá essa jóia da poesia portuguesa, que dedicou à sua morte o nosso grande lírico, o autor melodioso dos «Cânticos e Suspiros»? Ah! Srª Condessa, recitemos ambos, na nossa dor comum, esta estrofe, digna dos Hugos, dos Passos e dos Leais:

Teu corpo desce à terra escura e fria...

Terra de Portugal. Treva sombria

Te cobre e te devora!

Mas não perecerá teu génio altivo,

E surges para a História redivivo

como da Noite a Aurora...

A música mesmo (para que todas as Artes se reunissem no coro de prantos) lá lhe vai dar o seu tributo, nessa inspirada com posição–eA Civilização» – valsa dedicada à memória do ilustre Conde d'Abranhos, pelo padre Abílio Figueira!

Era tempo, pois, Srª Condessa, que eu, que nessa grande explosão de dor me conservei taciturno e retraído (devendo dizer-se que o severo ataque de fígado que então me prostrou, resultante das longas noites de vigília à cabeceira do grande enfermo, me forçou a um silêncio involuntário) – venha enfim depor sobre o seu túmulo esta memória humilde.

A Ele, Srª Condessa, devo tudo. O pão do corpo e o pão da alma, me deu ele com generosidade larga e fidalga. Nunca o esquecerei. Por vezes, quando me via (sobretudo.4 depois da bronquite de que padeci no Inverno de 1870) um pouco pálido ou debilitado, ele próprio ia ao armário do seu escritório e por sua mão me servia de um, às vezes dois cálices de vinho do Porto de 1815. Nos dias em que tinha gente a jantar, nunca se esquecia de mandar guardar alguma sobremesa para eu levar a meus filhos, que lhe devem, além desta lembrança mimosa, a educação sólida e cristã de que gozam e que os habilitará, espero, a entrar um dia, com justo mérito, nas Repartições do Estado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →