Por Eça de Queirós (1888)
- Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas, todos os horrores... A mim está-me positivamente a appetecer uma cubata na Africa!
O almoço, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do Torto começou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite. Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupé que trepava n'um trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de
relance o chapéo branco e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera tambem a caleche da Toca, vinha já saltitando as lamas com longas pernadas de cegonha, chamando por Carlos.
Ao vêr Maria ficou atrapalhado:
- Que bella surpreza! Eu ia para lá... Vi o dia tão bonito disse commigo...
- Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella brusca chegada aos Olivaes.
Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraçado, sem poder desabafar diante de Maria sobre o caso da Corneta, começou, sob os olhos de Carlos que o não deixavam, a fallar do inverno, das inundações do Riba-Tejo... Maria lêra. Uma desgraça, duas crianças afogadas nos berços, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos não se conteve:
- Eu lá recebi a tua carta...
Ega acudiu:
- Arranja-se tudo! Está tudo combinado! E com effeito eu não vim senão por um sentimento bucolico...
Muito discretamente Maria olhára para o rio. Ega fez então um gesto rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro». Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se
«ia commetter» no salão da Trindade... Era uma vasta solenidade oficial. Tenores do parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo ia entrar em fogo. Os reis assistiam, já
se teciam grinaldas de camelias para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fôra convidado para lêr um episodio das Memorias d'um Atomo: recusára-se, por modestia, por não encontrar nas Memorias nada tão suficientemente palerma que agradasse á capital.
Mas lembrára o Cruges; e o maestro ia ribombar ou arrulhar uma das suas Meditações. Além d'isso havia uma poesia social pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia...
- E a snr.ª D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... É summamente pittoresco. Tinha v. exc.ª occasião de vêr todo o Portugal romantico e liberal, à la besogne, engravatado de branco, dando tudo que tem n'alma! - Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges toca, se o Alencar recita, é uma festa nossa...
- Pois está claro! gritou Ega, procurando o monoculo, já excitado. Ha duas coisas que é necessario vêr em Lisboa... Uma procissão do Senhor dos Passos e um sarau poetico!
Rolavam então pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que parasse no começo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de lá o americano para o Ramalhete.
Mas a tipoia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente d'uma loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calçando as suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo vestido de luto. Ao vêr Maria, que se inclinára á
portinhola, o homem pareceu assombrado; depois, com uma leve côr na face larga e pallida, fitou gravemente o chapéo, um immenso chapéo de abas recurvas, á moda de 1830, carregado de crepe.
- Quem é? perguntou Carlos.
- É o tio do Damaso, o Guimarães, disse Maria, que córára tambem. É, curioso, elle aqui!
Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do Rappel, o intimo de Gambetta! Carlos recordava-se de ter já encontrado aquelle patriarcha no Price com o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma gravidade maior o seu sombrio chapéo de carbonario. Ega entalára vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando a caleche já subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas austeras de revolucionario... - Bom typo! E que magnifico chapéo, hein! D'onde diabo o conhece a snr.ª D. Maria?
- De Paris... Este Mr. Guimarães era muito da mãi d'ella. A Maria já me tinha fallado n'elle. É um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o Rappel, e morre de fome...
- Mas então, o Damaso?
- O Damaso é um trapalhão. Vamos nós ao nosso caso... Essa immundicie que me mandaste, a Corneta Dize lá.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.