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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Ergueu-se, abalado. E então alli, sob essas arvores desfolhadas, onde durante o verão, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle passeára com Maria, esposa eleita da sua vida - Carlos perguntou pela vez primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem lhe permittiam em verdade casar com ella...

Dedicar-lhe toda a sua affeição, toda a sua fortuna, certamente! Mas casar... E se tivesse um filho? O seu filho, já homem, altivo e puro, poderia um dia lêr n'uma Corneta do Diabo que sua mãi fôra amante d'um brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se

seu filho lhe viesse gritar, n'uma bella indignação, «é uma calumnia?» - elle teria de baixar a cabeça, marmurar - «é uma verdade!» E seu filho veria para sempre collada a si aquella mãi de quem o mundo ignorava os martyrios e os encantos - mas de quem conhecia cruelmente os erros.

E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razão, alta e tão recta, mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil Corneta do Diabo poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse - ella mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo côr de cereja, comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella tornára, em todo o verão, a alludir a uma união differente d'essa em que os seus corações viviam tão lealmente, tão confortavelmente. Não, Maria não era uma devota, preoccupada «do peccado mortal»! Que lhe podia importar a estola banal do padre?...

Sim; mas elle que lhe pedira essa consagração na hora mais commovida do seu longo amor, iria dizer-lhe agora - «foi uma criancice, não pensemos mais n'isso, desculpa?» Não; nem o seu coração o desejava! Antes pendia todo para ella... Pendia todo para

ella, n'um enternecimento mais generoso e mais quente - emquanto a sua razão assim arengava, cautelosa e austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles braços a sua voluptuosidade magnifica; fóra d'alli não havia felicidade; a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais forte, o seu nome, embora as Cornetas do Diabo atroassem todo o ar. E assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a omnipotencia, o reino unico da Paixão... Mas primeiro mataria o folliculario! - Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos se resolviam por fim em furia contra o infame que babára sobre o seu amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e tanto tormento!

Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo justo modelava a belleza cheia e quente - para que Carlos detestasse logo as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonára

um momento sob as arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e mudo, teve a humildade d'um perdão que se implora.

- Que tens tu, que estás tão sério?

Elle sorriu. Sério, no sentido de solemne, não estava. Talvez seccado. Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicações do Ega. E precisava ir a Lisboa, ficar lá naturalmente toda a noite... - Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as mãos sobre os hombros. - Sim, é bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa?

- Agora, com mais razão... Se me queres.

- O dia esta bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.

Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta.

- Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoço, minha filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.

Emquanto Maria correra a apressar o Domingos - Carlos, através da relva humida, foi ainda lentamente até ao renque baixo d'arbustos que d'aquelle lado fechava a Toca como uma sebe. Ahi a colina descia, com quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminé de fabrica que fumegava: para além era o azul fino e frio do rio: depois os montes, d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoação aninhada á beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, tão quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de obscuridade, n'um canto assim do mundo, á beira d'agua, onde ninguem o conhecesse nem houvesse Cornetas do Diabo, e elle pudesse ter a paz d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem amava... Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruçára a apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam.

- Que lindo tempo para viajar, Maria! - disse Carlos chegando, através da relva.

- Lisboa é tambem muito linda, agora, havendo sol...

(continua...)

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