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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

n'um relance, viu salpicado com o seu nome. E leu isto: «- Ora viva, sô Maia! «Então já se não vai ao consultorio, nem se vêem os doentes do bairro, «sô janota? - Esta piada era botada no Chiado, á porta da «Havaneza, ao Maia, ao Maia dos cavallos inglezes, um

tal Maia do «Ramalhete, que abarrota por ahi de catita; e o pai Paulino que «tem olho e que passava n'essa occasião ouviu a seguinte «cornetada: - É que o sô Maia acha que é mais «quente viver nas fraldas d'uma brazileira casada, que nem é «brazileira nem é casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado dos «Olivaes, para estar ao fresco! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa «o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o «que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas louras... «O simplorio, que bate ahi pilecas bifes, que nem que fosse o «marquez, o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava «abiscoitando com uma senhora do chic, e do boulevard de Paris, e «casada, e titular!... E no fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o «bandulho a rir!) no fim descobre-se que a typa era uma cocotte «safada, que trouxe para ahi um brazileiro já farto d'ella para a «passar cá, aos bellos lusitanos... E cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! «Ainda assim o sô Maia só apanhou os restos d'outro, porque a «typa já antes d'elle se enfeitar, tinha pandegado á larga, «ahi para a rua de S. Francisco com um rapaz da fina, que se safou «tambem, porque cá como nós só aprecia a bella hespanhola. Mas «não obsta a que o sô Maia seja traste! - Pois se assim é, dissemos «nós, cautelinha, porque o diabo cá tem a sua Corneta preparada «para cornetear por esse mundo as façanhas do Maia das «conquistas. Ora viva,sô Maia!»

Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mão, no espanto furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa chapada de lôdo! Não era a cólera de vêr o seu amor assim aviltado na publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas phrases em calão, pandilhas, afadistadas, como só Lisboa as póde crear, pingando fetidamente, á maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o esplendor da sua paixão... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idéa surgiu através da sua confusão matar o bruto que escrevera aquillo.

Matal-o! Ega sustára a tiragem da folha, Ega pois conhecia o folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mão, fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse espalhada nas praças n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada só a elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousára tinha de cahir, esmagado!

Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos à janella da cozinha areava pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:

- V. exc.ª tem às onze horas a caleche do Torto que a senhora mandou cá estar para ir a Lisboa... Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planeára ir á Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que elle precisava ficar livre - elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando então com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se não vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeçou a passear, no tapete de relva, entre as nogueiras.

Sentou-se por fim no banco de cortiça, descintou a Corneta sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse numero que lhe fôra destinado a ella, todo aquelle calão lhe pareceu mais ultrajante, intoleravel, punível só com sangue. Era monstruoso, na verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua casa, alguem ousasse tão brutalmente arremessar esse lôdo ás mãos cheias! E a sua indignação alargava-se do folliculario que babára aquillo - até á sociedade que, na sua

decomposição, produzira o folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas só Lisboa, só a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do bom gosto, a sua pulhice e o seu calão, podia produzir uma Corneta do Diabo.

E, no meio d'esta alta cólera de moralista, uma dôr perpassava, precisa e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido n'este canto do mundo - mas, em summa, havia no artigo da Corneta uma calumnia? Não. Era o passado de Maria,

que ella arrancára de si como um vestido rôto e sujo, que elle mesmo enterrára muito fundo, deitando-lhe por cima o seu amor e o seu nome - e que alguem desenterrava para o mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgões... E isto agora ameaçava para sempre a sua vida como um terror sobre ella suspenso. Debalde elle perdoára, debalde elle esquecera. O mundo em redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade podefiam refazer o artigo da Corneta.

(continua...)

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