Por Eça de Queirós (1888)
O outro não respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e do romantismo, entoou louvores sonoros á família, ao trabalho, aos altos deveres humanos - bebendo copinhos de cognac. Á meia noite, ao sahir, tropeçou duas vezes na rua d'acacias, já vago, citando Proudhon. E quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braço para lhe fallar da Revista, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, já estirado no assento, tirando o chapéo á aragem da noite:
- E outra coisa, Carlinhos. Vê se me arranjas a ingleza... Ha vicios deliciosos n'aquellas pestanas baixas... Vê se m'a arranjas... Vá lá, bate lá, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!
Carlos ficára encantado com este primeiro jantar d'amizade na Toca. Elle tencionava não apresentar Maria aos seus intimos senão depois de casado e á volta de Italia. Mas agora a «união legal» estava já no seu pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago.
Como dizia o Ega, devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle não poderiam isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns amigos em redor. Por isso uma manhã, encontrando o Cruges, que fôra o visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da «lady ingleza», pediu-lhe para vir jantar á Toca no domingo.
O maestro appareceu n'uma tipóia, á tardinha, de laço branco e de casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega começaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, além das Lolas e Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, «com o
seu porte de grande-dame», como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das algibeiras. Antes de jantar, por lembrança de Carlos, foram-lhe mostrar a quinta. O pobre maestro, roçando a casaca mal feita pela folhagem dos arbustos, fazia esforços anciosos por murmurar algum elogio «á belleza do sitio»; mas escapavam-lhe então inexplicavelmente coisas reles, em calão: «vista catita»! «é pitada»! Depois ficava furioso, coberto de suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos abominaveis, tão contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se sentou á mesa soffria um negrissimo accesso de spleen e mudez! Nem uma controversia que Maria arranjára caridosamente para elle sobre Wagner e Verdi pôde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou envolvel-o na alegria da mesa - contando a ida a Cintra, quando elle procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achára uma matrona obesa, de bigode, de cãosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas a cada exclamação de Carlos - «Lembras-te, Cruges?», «Não é verdade, Cruges?» - o maestro, rubro, grunhia apenas um sim avaro. Terminou por estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o jantar. Combinára-se para depois do café um passeio pelos arredores, n'um break. E Carlos já tomára as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as luvas – quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break, correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de cavallo na estrada - e appareceu o marquez.
Foi uma surpreza para Carlos, que o não vira durante esse verão. O marquez parou logo, tirando profundamente, ao vêr Maria, o seu largo chapéo desabado.
- Imaginava-o pela Gollegã! exclamou Carlos. Foi até o Cruges que me disse... Quando chegou vossê? Chegára na vespera. La fôra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos Olivaes vêr um dos Vargas que tinha casado, se installára alli perto, a passar o noivado...
- Quem, o gordo, o das corridas?
- Não, o magro, o das regatas.
Carlos, debruçado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena, bem estampada, d'um baio escuro e bonito.
- Isso é novo?
- Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossê comprar? Sou já um pouco pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart... - Dê lá uma volta.
O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos achou-lhe «boas acções». Maria murmurou - «Muito bonita, uma cabeça fina...» Então Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame Mac-Gren. Elle chegou a egoa á roda, descoberto, para apertar a mão a Maria: e á espera do Ega que se eternisava lá dentro, ficaram fallando do verão, de Santa Olavia, dos Olivaes, da Toca... Ha que tempos o marquez alli não passava! A ultima vez fôra victima da excentricidade do Craft...
- Imagine v. exc.ª, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me convida a almoçar. Venho, e o hortelão diz-me que o snr. Craft, criado e cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixára um cartaz na sala... Vou á sala, e vejo dependurado ao pescoço d'um idolo japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: «O deus Tchi tem a honra de convidar o snr.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.