Por Eça de Queirós (1888)
Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, n'esses dias de inquietação, lhe acudira idéa tão sensata, tão facil! Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avô toda a dôr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a conversão do amante no marido pelo laço d'estola que tudo purifica e nenhuma força desata. Mas ella mesma preferiria uma consagração legal - que não fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, tão recta e generosa, comprehenderia bem a obrigação suprema de não mortificar aquelle santo velho. De resto, não conhecia ella a sua lealdade solida e pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento estavam casados, não diante do sacrario e nos registos da sacristia – mas diante da honra e na inabalavel communhão dos seus corações...
- Tens razão! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens immensamente razão! Essa idéa é genial!
Devo esperar... E emquanto espero?...
- Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso não é commigo! E mais sério:
- Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre. Installas tua mulher, porque desde hoje é tua mulher, aqui nos Olivaes ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que façaes
essa viagem nupcial á Italia... Voltas, continúas a fumar a tua cigarette e a deixar-te ir. Este é o bom senso: é assim que pensaria o grande Sancho Pansa... Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira tão bem?
- Um ananaz... Pois é isso, querido: esperar, deixar-me ir. É uma idéa!
Uma idéa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moço; o mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. Não tinha senão a deixar-se ir.
- Tens razão, Ega ! E Maria é a primeira a achar isto cheio de senso e d'opportunismo. Eu tenho uma certa pena em adiar a installação da minha vida e do meu home. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avô seja feliz... E para celebrar o advento d'esta idéa,
Deus queira que Maria nos tenha um bom jantar!
Agora, ao aproximar-se da Toca, Ega ia receando o primeiro encontro com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella não poderia occultar - certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a sua vida, as suas miserias, as suas relações
com Castro Gomes. Por isso hesitára em vir á Toca. Mas tambem, não apparecer mais a Maria Eduarda seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de não molestar o seu pudor... Por isso decidira «dar o mergulho d'uma vez». Quem, senão elle,
deveria ser o mais apressado em estender a mão á noiva de Carlos?... Além d'isso tinha uma infinita curiosidade de vêr no seu interior, á sua mesa, essa creatura tão bella, com a sua graça nobre de Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraçado.
Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava, sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, córou toda, com effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o aperto de mão que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente, desembrulhára o ananaz - e na admiração d'elle todo o constrangimento se dissipou.
- Oh! é magnifico!
- Que côr, que luxo de tons!
- E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.
Ega não voltára á Toca desde a noite fatal da soirée dos Cohens em que elle alli tanto bebera e delirára tanto. E lembrou logo a Carlos a jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o grog do Craft, a ceia de perú...
- Já aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!...
- Por causa de Margarida?
- Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora, senão por Margarida ou por Fausto?
Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da Toca. E foi já com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que só viesse assim á Toca no fim do verão e no fim das flôres. Ega extasiouse ruidosamente. Emfim, perdera a Toca o seu ar regelado e triste de museu! Já alli se podia palrar livremente!
- Isto é um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror á arte! É um Ibero, é um Semita... Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo não podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade sorumbatica de antepassados com cabelleira...
- Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito lembram antes a ligeireza, o espirito, a graça de maneiras...
- V. exc.ª acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses enramalhetados, esses rococós lembram-me uma vivacidade estouvada e sirigaita... Nada! nós vivemos n'uma Democracia! E não ha para exprimir a alegria simples, sólida e bonacheirona da Democracia, como largas poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!...
Assim n'uma risonha, ligeira discussão sobre bric-à-brac, desceram ao jardim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.