Por Eça de Queirós (1940)
Desde que os Russos estão do lado de lá dos Balcãs, no caminho que leva a Constantinopla, todo o interesse da última semana se tem resumido nesta interrogação: que vai fazer a Inglaterra? Londres ficou atónita segunda-feira passada, quando soube que o Governo ia mantas tropas para o Mediterrâneo. «E a guerra!«, exclamava-se por toda a parte. Não era a guerra ainda, mas era aviso ao leitor. O leitor, neste caso, é o czar. Com efeito, depois de muitas ordens e contra-ordens, que mostravam uma grande vacilação, três mil homens foram remetidos para Malta e Gibraltar, e instruções dadas a outros corpos para estarem preparados, inclusive o Corpo de Administração Militar, que só acompanha as divisões expedicionárias. Isto tinha uma feição singularmente guerreira. Soube-se logo que na Câmara dos Lordes e na Câmara dos Comuns o ministério seria interrogado sobre a significação destes preparativos – e havia uma curiosidade pungente em escutar a resposta de Lord Derby.
Lord Derby deu a única resposta que se podia dar – diplomática e reservada. Declarou que as tropas são simplesmente para reforçar as guarnições de Malta e de Gibraltar, que, nesta ocasião em que a região mediterrânea está num estado de perturbação, necessitavam ser fortemente completadas. Esta resposta naturalmente não significava nada – senão que a verdade não podia ser dita.
Realmente Gibraltar só pode ser atacada por terra, pela Espanha, e não consta que a Espanha tenha a mínima intenção de declarar a guerra à Inglaterra; enquanto a Malta, só pode ser atacada por mar – e não é portanto de nenhuma utilidade aumentar a força de terra; sobretudo se se considerar que, entre as tropas enviadas a Malta e a Gibraltar, vai o 17º de Lanceiros, e que realmente não se concebe para que possa servir em Malta ou em Gibraltar um forte regimento de cavalaria. Não está nos hábitos da guerra opor a navios couraçados os regimentos de lanceiros. Era evidente, portanto, que a expedição ia simplesmente a Gibraltar e a Malta para estar mais perto do seu verdadeiro destino; e este destino, ninguém o ignora, é Galípoli.
A pequena península onde está Galípoli, que domina a entrada dos Dardanelos, pode ser, em poucos dias, convertida num campo entrincheirado, inacessível por terra, inexpugnável por mar, onde a Inglaterra se poderia estabelecer – e, senhora daquela posição formidável, ditar as suas condições, se se tratasse de paz, ou preparar os seus movimentos, se se tratasse de guerra.
Isto, porém, não parece tão fácil. Com que carácter vai a Inglaterra estabelecer-se em Galípoli? Como aliada da Turquia? Mas então tem de o manifestar claramente, por algum acto público de aliança, e por este facto lança-se isolada em uma guerra contra a Rússia, sem estar de modo nenhum preparada militarmente para esta eventualidade temerária. Vai simplesmente a Galípoli como neutral? Mas consentirão os Turcos que uma nação neutral se estabeleça com armas e bagagens no seu território? Não é natural; os Turcos estão extremamente despeitados com a Inglaterra e com a sua atitude indiferente; sempre acreditaram que a
Inglaterra, declarada a guerra, os ajudaria e seguiria, sem hesitar, a sua política tradicional. Consideram-se logrados; e não é presumível que lhe permitissem um desembarque em Galípoli sem que a Inglaterra lhes prometesse uma aliança decidida: haveria, com efeito, alguma coisa de monstruoso, da parte da Inglaterra, em ocupas Galípoli pelos seus próprios interesses, sem se dignar ajudar o dono do território quando ele está em perigo. Os Turcos nunca consentiriam nesta humilhação; resistiriam e, como não duvidam de nada, fariam fogo sobre o primeiro navio inglês que se aproximasse de Galípoli, com tanta mais vontade quanto maior é o despeito que lhes causa a neutralidade inglesa. Portanto, a Inglaterra só pode ir a Galípoli – ou como aliada ou como inimiga do Turco. No primeiro caso, provoca uma guerra gratuita, sem estar preparada para tal; no segundo, tem de ajudar à destruição do Império Turco, renegando a sua política e combatendo os seus próprios interesses.
Leio em muitos jornais e ouço muitos políticos dizerem que a ocupação de Galípoli é um acto de profunda política; que os Turcos serão fatalmente batidos e que a Bulgária e a Bósnia deverão ser arrancadas ao domínio turco; que, assim, os Turcos serão zero na Europa, e o território que lhes for deixado, cercado por todos os lados de inimigos, oferecendo poucas condições de defesa e enormes facilidades de ataque, será inteiramente impotente para formar uma barreira séria em torno de Constantinopla; que Constantinopla ficará assim à mercê da menor invasão e que, portanto, os Dardanelos, o mar da Mármara e o mar Negro não terão quem os defenda, porque o Turco na Europa não será mais que uma sombra! Portanto, dizem, logo que a Inglaterra esteja estabelecida em Galípoli ela fará as vezes do Turco, e guardará a passagem dos Dardanelos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.