Por Eça de Queirós (1878)
- Éramos duas crianças!
Basílio encolheu tristemente os ombros, fitou as ramagens do tapete; parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:
- Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!
Ela via a sua cabeça bem feita, descaída naquela melancolia das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabelos brancos - que lhe dera a separação. Sentia também uma vaga saudade encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janela, como para dissipar na luz viva e forte aquela perturbação. Perguntou-lhe então pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.
Fora sempre o seu desejo viajar - dizia -,ir ao Oriente. Quereria andar em caravanas, balouçada no dorso dos camelos; e não teria medo, nem do deserto, nem das feras...
- Estás muito valente! - disse Basílio. - Tu eras uma maricas, tinhas medo de tudo... Até daadega, na casa do papá, em Almada!
Ela corou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterrânea que dava arrepios! A candeia de azeite pendurada na parede alumiava com uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de teias de aranha, e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia ali ás vezes, pelos cantos, beijos furtados...
Quis saber então o que tinha feito em Jerusalém; se era bonito.
Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulcro; depois do almoço montava a cavalo... Não se estava mal no hotel; inglesas bonitas... Tinha algumas intimidades ilustres...
Falava delas, devagar, traçando a perna; o seu amigo, o patriarca de Jerusalém, a sua velha amiga, a Princesa de La Tour d'Auvergne! Mas o melhor do dia era de tarde - dizia - no Jardim das Oliveiras, vendo defronte as muralhas do Templo de Salomão, ao pé a aldeia escura de Betânia onde Marta fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando imóvel sob o sol, o Mar Morto! E ali passava sentado num banco, fumando tranqüilamente o seu cachimbo!
Se tinha corrido perigos?
Decerto. Uma tempestade de areia no deserto de Petra! Horrível! Mas que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua toalete, uma manta de pele de camelo às listras vermelhas e pretas, um punhal de Damasco numa cinta de Bagdá, e a lança comprida dos beduínos.
- Devia-te ficar bem!
- Muito bem. Tenho fotografias.
Prometeu dar-lhe uma, e acrescentou:
- Sabes que te trago presentes?
- Trazes? - E os seus olhos brilhavam.
O melhor era um rosário...
- Um rosário?
- Uma relíquia! Foi benzido primeiro pelo patriarca de Jerusalém sobre o túmulo de Cristo,depois pelo papa...
Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito asseado, já todo branquinho, vestido de branco, muito amável!
- Tu dantes não eras muito devota - disse.
- Não, não sou muito caturra nessas coisas - respondeu rindo.
- Lembras-te da capela da nossa casa em Almada?
Tinham passado ali lindas tardes! Ao pé da velha capela morgada havia um adro todo cheio de altas ervas floridas - e as papoulas, quando vinha a aragem, agitavam-se como asas vermelhas de borboletas pousadas...
- E a tília, lembras-te, onde eu fazia ginástica?
- Não falemos no que lá vai!
Em que queria ela então que ele falasse? Era a sua mocidade, o melhor que tivera na vida...
Ela sorriu, perguntou:
- E no Brasil?
Um horror! Até fizera a corte a uma mulata.
- E por que te não casaste?... Estava a mangar! Uma mulata!
- E de resto - acrescentou com a voz de um arrependimento triste -, já que me não casei quandodevia - encolheu os ombros melancolicamente -, acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.
Luísa fez-se escarlate. Houve um silêncio.
- E qual é o outro presente, então, além do rosário?
- Ah! Luvas. Luvas de verão, de peau de suede, de oito botões. Luvas decentes. Vocês aqui usam umas luvitas de dois botões, a ver-se o punho, um horror!
De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! Era atroz! Não dizia por ela; até aquele vestido tinha chique, era simples, era honesto. Mas em geral era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as toaletes daquele verão! Oh! Mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegara ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer! - Só em Paris se come - resumiu.
Luísa voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço por uma fita de veludo preto.
- E estiveste então um ano em Paris?
Um ano divino. Tinha um apartamento lindíssimo, que pertencera a Lord Flamouth, Rue Saint Florentin; tinha três cavalos...
E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:
- Enfim, fazer este vale de lágrimas o mais confortável possível!... Dize cá, tens algum retratonesse medalhão?
- O retrato de meu marido.
- Ah! Deixa ver!
Luísa abriu o medalhão. Ele debruçou-se; tinha o rosto quase sobre o peito dela. Luísa sentia o aroma fino que vinha de seus cabelos.
- Muito bem, muito bem! - fez Basílio.
Ficaram calados.
- Que calor que está! - disse Luísa. - Abafa-se, bem!
Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixara a varanda. Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinelas.
- É o calor do Brasil - disse ele. - Sabes que estás mais crescida?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.