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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

— Escreverei duas linhas — disse eu -, quererá dar-me um lápis?Tínhamos chegado ao quarto que me era destinado e eu des vendei-me ao tempo em que ele safa prometendo trazer-me o ne cessário para escrever. O indivíduo que voltou compapel e penas: não era o mesmo que acabara de sair. Assim tinha eu perdido a ocasião de confirmar uma suspeita ou de desvanecer uma dúvida.

Em todo ocaso escrevi duas linhas ao meu criado serenando-o: com relação ao meudesaparecimento.

— Mais nada? -interrogou o desconhecido tomando o meu bi lhete.- Nada mais. Um sentimento de delicadeza e uma sombra de desconfiança impediam-me de escrever directamente à pessoa a quem o mascarado se referira.Fecharam a porta e fiquei só.

Achei-me num quarto de interior, bastante espaçoso, mas sem janela. A um lado haviaum lavatório; sobrepostas a um canto três malas de viagem, de couro de Varsóvia com pregos de aço, estrela tias com senhas de caminho-de-ferro, de hotéis e de paquetes; a que estava por cima das outras tinha em grandes letras pretas sobre uma tira de papel este dístico: GrandHotel-Paris; uma das senhas era dos paquetes ingleses da carreira da Índia.Para outro lado do quarto havia uma cama. Completava a simples guarnição deste aposento um sofá forrado de marroquim verde, colocado n meio da casa defronte de uma ampla mesaem que estava posta a minha ceia à luz fulgurante de um grande candeeiro com largo abatjour.

Queres que te confesse a verdade? Agradou-me aquele recolhi mento, aquele sossego,aquela solidão, depois da grande sobre-excitação em que me tinha achado!

Estirei-me no sofá, pus-me a olhar maquinalmente para o círculo da luz trepidanteprojectada pelo candeeiro e contornada n tecto pela abertura do abat-jour, e começaram adesafogar-seme os comprimidos espasmos do coração em bocejos longos acompanhados de estremecimentos nervosos, que me convidavam suavemente ao repouso. A minhaimaginação, ocupada num trabalho inconsciente semelhante ao dos sonhos, ia tirando, no entanto, do caso que eu presenciara as ramificações mais ilógicas e mais fantásticas. Ossucessos por que passámos desde a estrada de Sintra até à minha entrada neste quarto apareciam-me redemoinhando convulsamente no ar como um enorme enigma figurado, cujos objectos tumultuavam impelidos pelos pontapés de diabinhos sarcásticos, que se riampara mim e me deitavam de fora as linguazinhas em brasa.

Fui caindo molemente num despego lânguido, fecharam-se-me os olhos, adormeci.Ao acordar, depois de um sono breve mas sossegado e repara dor, encarei na ceia que reluzia aos meus olhos.

Havia sobre a mesa um pão, uma caixa de lata com sardinhas de Nantes, umaterrinazinha de foie gras, uma perdiz, uma fatia de queijo e três garrafas de vinho deBorgonha, lacradas de verde; junto destas, quatro garrafas de soda. Na argola de prata do guardanapo estava passado o saca-rolhas. Sobre uma bandeja de metal erguia-se um eixo decharutos cor de chocolate, luzidios, gordos, apertados nas extremidades com duas fitas de seda carmesim. Em cima da caixa das sardinhas achava-se colocado o ins trumento destinadoa abri-la. O copo era de cristal finíssimo, o garfo de prata dourada, a faca de cabo de madrepérola, os pratos de porcelana brancos, cercados de um estreito filete dourado e verde. Atirei rapidamente com os pés para o chão. Sentei-me no sofá, senti a fome encavalar-se-meno dorso, carregar-me na cabeça para cima da ceia, cingir-me a cinta com as suas pernas esgalgadas e cravar-me no estômago vazio os acicates da gula.Ao mesmo tempo ergueu-se-me do outro lado da mesa a aban tesma do susto, cravando os olhos em mim e espalmando por cima das iguarias a sua mão descamada e trémula com um gesto proibitivo e solene. Atarantado, perplexo, escutei então dentro de mim um brevediálogo semelhante àqueles que Xavier de Maistre tra vava de quando em quando com a besta, na sua viagem à volta do quarto.Havia uma voz pausada e grave que dizia:

— Atenta no que fazes, temerário! Abre teus olhos, inconsi derado mortal! Essa perdiz, cujo peito insidioso e pérfido está lourejando a teus olhos; foi apimentada com arsénico.Aquele Chambertin, que te espera como uma onda dá lagoa Estígia, emboscada por detrás daquele letreiro envernizado, aparentemente simples, elegante, convidativo, mas em verdadetenebroso e fatal como o dístico do festim de Baltasar, aquele vinho, que te oferece um beijo refalsado e fementido, está destemperado com ácido prús sico. As trufas, lúbricas, venais, devassas, envoltas nesses fígados de pato, estão empapadas nos temperos letais da cozinhados Bórgias!

(continua...)

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