Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O local mais atractivo do seu espirito era a quinta dos condes de Pombeiro, em Belas. Desde o reinado de el-rei D. Manuel que as gigantes árvores daquela majestosa anciã estavam frondeando, e asilando as gerações de aves, como para alegrarem com suas músicas, e agasalharem com suas sombras o moço foragido do estrondear da cidade. Por ali as horas lhe corriam plácidas, contentes nunca, bem que a tristeza de entre os arvoredos, ao murmuroso cair de água em sonora bacia, seja uma particular tristeza, que, relembrada depois, dá rebates de saudade, saudade como a sentimos de alegrias para sempre idas com a sazão das breves e donairosas verduras da vida.

De cada vez que Afonso ia à quinta predilecta, em cada árvore nova entalhava as letras inicias dos dois nomes, que ele imaginava, apesar da distância e dos reveses, atados para sempre com aplauso de Deus. Este pagão de amor e por amor, à imitação de todos os amadores visionários, cuidava que a divindade se intromete nestas brincadeiras da terra, chamadas paixões, passatempo de muito folgar que, algumas vezes, nas suas folganças e corrimaças, esbarra na sepultura aberta e lá se atira em como, deixando cá fora a alma infernada na desonra e na execração. E querem os pobrezinhos, com o peito aberto ao abutre de suas quimeras, que Deus intervenha nos seus infernados brinquedos!

E Afonso, escondido nas sombras escuras de Belas, chorava por Teodora e, alteando o rosto ao Céu, pedia ao Senhor que lhe visse as lágrimas e houvesse piedade delas.

O desembargador inquietava-se com as longas ausências do sobrinho; mas não o contrariava. As filhas é que mais se queixavam da selvatiqueza do primo, que se ia à aldeia a conversar com arvores e penedos e deixava suas primas, que tanto se interessavam em diverti-lo. Nestes queixumes das gentis meninas transparecia um mal disfarçado despeito de todas e de cada uma. Qualquer delas, a resguardo das outras, havia pensado em ser a mais amoravelmente olhada dos olhos de Afonso, o galhardo moço, que tantas graças tinha, como se lhe não bastasse ser rico! O amador da órfã das Ursulinas, se pudesse suspeitar que suas primas conjuravam em disputar-lhe uns grãozinhos do mesmo incenso de Teodora, não faria menos que odiá-las. Estes escrúpulos são a religião, o ascetismo dos iluminados de amor, iluminados lhes chamarei eu em respeito do leitor maior de trinta anos, e compaixão de mim, que ambos nós já fomos também iluminados, e não é por nossa vontade que estamos agora atolados neste lamaçal, onde, por sobre todas as desgraças e vergonhas, ainda queremos ver na superfície lamacenta e torva espelharem as estrelas do céu da nossa mocidade!

Afonso esperava ainda. Sua mãe mentia-lhe. Seu tio, aferrado às tradições de avós, devia de tramar a quebra do casamento destinado com uma menina, apenas formosa, rica e pura, como um anjo a quisera para si. E o que Afonso pensava do silêncio da mãe e das reflexões do velho.

Estava uma tarde de Agosto, Afonso em Belas. Desde o dia anterior que não voltara a Lisboa. O tio, como ele não voltasse ao segundo dia, meteu-se à sua carruagem e foi procurá-lo e entregar-lhe cartas recebidas do Norte. Uma era de sua mãe, outra de um seu tio paterno, fidalgo de Barcelos, o mais acérrimo impugnador do casamento de um Teive Lacerda Correia Figueiroa com uma mulher da Fervença que, dizia ele, por nome não perca.

A carta da mãe dizia simplesmente: Não era digna de ti, meu filho. Deus bem mo tinha dito, e o coração estalava-me em ânsia de to dizer Agora, meu filho, ou cumpre o que o tio Fernão te pede, ou faz o que a honra te aconselhar.

E poucas mais expressões de conforto religioso; mas insinuantes como sabem dizêlas as mães, que nunca se temem de corar diante de seus filhos.

A carta de Fernão de Teive era mais prolixa, versando quase toda sobre o casamento de Teodora com Eleutério.

Parecem-me dignos de extracto uns relanços desta carta, que eu copiei do original.

Não parecem de fidalgo velho, e estranho ao estilo picaresco do folhetim: Eu estava em Braga, de visita aos primos Vasconcelos do Tanque, e acaso vi o cortejo nupcial da morgada sem morgadio. Predominavam as éguas de albardão e rabicho na parte equestre do préstito, que era luzido, porque os arreios brilhavam, principalmente as barbeias. O noivo ia desencabrestado, visto que tirara bula para isso, quando tirou dispensa do parentesco. A morgada. com a cara relambória, levava ares fulos; e procurava as estrelas ao pino do meio-dia, pasmada de ver que elas não vinham à janela admirá-la. Eu, lembrando-me que a vergontinha da Fervença esteve a querer trepar pelos troncos de Farelães e Numães, dei louvores a Deus e parabéns aos nossos antepassados!

Perguntei quem eram os figurões do préstito. O meu sapateiro conhecia quatro.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1718192021...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →