Por Eça de Queirós (1940)
O imperador do Brasil continua a ser favorito, como aqui se diz, da sociedade de Londres. A sua actividade sobretudo é admirada: a pé desde as seis da manhã, não há instituição, museu, galeria, biblioteca, palácio, hospital, curiosidade, homem ilustre, que não visite, que não estude.
Em todas as sociedades de que é feito membro tem sempre uma palavra interessante a dizer, uma comunicação curiosa a fazer. Com tudo isto, uma simplicidade quase plebeia. A sua comitiva, porém, que ele traz nesta roda-viva há um ano, começa a perder a cabeça, de fadiga e de estonteamento: no dia em que suas majestades tomavam o trem de Paris para Londres, a alguém da comitiva ia esquecendo na plataforma da estação uma pequena mala contendo jóias no valor de cento e vinte mil libras! Felizmente, segundos antes da partida do trem, a imperatriz deu pela falta, e as jóias continuam a adornar as toilettes de sua majestade.
Diz-se geralmente que, em Portugal, o público tem ideia de que o Governo deve fazer tudo, pensar em tudo, iniciar tudo; tira-se daqui a conclusão que somos um povo sem poderes iniciadores, bons para ser tutelados, indignos de uma larga liberdade e inaptos para a independência. A nossa pobreza relativa é atribuída a este hábito político e social de depender para tudo do Governo, e de volver constantemente as mãos e olhos para ele como para uma Providência sempre presente. Pois bem: em Inglaterra, país de iniciativa individual, de alta independência pessoal, o público considera o parlamento como uma espécie de pai benévolo que tudo deve fazer, tudo remediar, tudo compor. As petições feitas por indivíduos ao parlamento sobre negócios particulares – contam-se por milhares e milhares em cada sessão.
Estas petições são metidas em grandes sacos e remetidas para as fábricas de papel, onde vão ser matéria-prima para petições futuras; mas algumas, por mais curiosas, são conhecidas e fazem a felicidade dos jornais satíricos. Assim tem causado hilaridade a petição muito séria e muito grave de uma família de rendeiros que reclama ao parlamento contra o seguinte escândalo: um empregado da polícia, seu vizinho, fez uma armadilha no quintal e matou-lhe dois gatos! A família pede à câmara dos deputados que a indemnize, processe a polícia e lhe substitua os gatos!
Há agora um costume, nas inculcadeiras de criadas em Londres, de que se fala muito e que me parece suficientemente impudente. As inculcadeiras têm álbuns com as fotografias das criadas, para que o patrão, ou a patroa, possa ver se a cara lhe convém, antes de saber se lhes convêm os serviços.
Até aqui muito bem. Uma cara simpática a servir à mesa do almoço, com uma fresca touca branca, é certamente preferível ao carão macilento de uma matrona azedada. Mas – coisa suspeita! – a maior parte destas fotografias têm os braços nus e o colo decotado!!! Que lhes parece? E para que é necessário, antes de tomar uma criada, saber se ela tem os braços redondos e o seio bonito?
Sobretudo – quando este álbum é destinado a ser examinado não só pelos patrões (e então ainda se compreende) mas pelas patroas! A Inglaterra, positivamente, vai à vela!
Na Escócia, os jornais vêm cheios de detalhes sobre o caso de Miss Grant. Miss Grant era há anos filha de um pobre caseiro, numa aldeia da Escócia, que por morte de um tio, de quem ninguém já se lembrava e que vivia na Índia, se achou, uma bela manhã de Abril, senhora de uma fortuna prodigiosa: além das propriedades riquíssimas, só em dinheiro recebeu esta gentil lavradeira a bagatela romanesca de trezentas mil libras!
Era bonita e esperta. Começou a viver com grande luxo, fez um palácio para os pais, e era feliz – quando aparece em cena uma linda rapariga, chamada Miss Temple. Desde esse dia, Miss Grant começa a mostrar-se excêntrica: em primeiro lugar, consegue que Miss Temple deixe pai, mãe, rompa com todas as suas relações e venha viver com ela; em seguida, as duas gentis criaturas fazem um contrato público pelo qual se Comprometem a nunca casar e a viverem sempre juntas: finalmente, Miss Grant faz um testamento pelo qual, no caso de morrer primeiro, deixaria a Miss Temple um milhão de libras se a mesma Miss Temple nunca a deixasse e se comprometesse a repelir toda a corte e casamento. O romance seguia encantadoramente quando, o ano passado, Miss Temple, muito ingrata, muito desprendida, casou. Miss Grant não destruiu o testamento, mas caiu numa melancolia mórbida e, há meses, morreu de paixão.
Um obscuro cirurgião de uma aldeia da Escócia herdou, ab intestado, aquela colossal fortuna. Mas agora a família Temple quer que o testamento se considere válido, faz processo e esperam-se revelações extraordinárias, que farão escândalo em toda a Inglaterra.
V
Londres, 1 de Agosto [de 1877]
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.