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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

Desceu, começou a varrer o corredor. - Toda a noite estivera doente: o quarto no sótão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas de ar, desde o começo do verão; na véspera até vomitara! E já levantada às seis horas, não descansara, limpando, engomando, despejando, com a pontada no lado e todo o estômago embrulhado! Tinha escancarado a cancela, e com grandes ais, atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.

- A senhora D. Luísa está em casa?

Voltou-se. Nos últimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe pareceu estrangeirado. Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos resplandecia.

- A senhora vai sair - disse ela olhando-o muito. - Faz favor de dizer quem é?

O indivíduo sorriu.

- Diga-lhe que é um sujeito para um negócio. Um negócio de minas.

Luísa, diante do toucador, já de chapéu, metia numa casa do corpete dois botões de rosa-chá.

- Um negócio! - disse muito surpreendida. - Deve ser algum recado para o Sr. Jorge, decerto! Mande entrar. Que espécie de homem é?

- Um janota!

Luísa desceu o véu branco, calçou devagar as luvas de peau de suède claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e abriu a porta da sala. Mas quase recuou; fez "ah!" toda escarlate. Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Basílio.

Houve um shake-hands demorado, um pouco trêmulo. Estavam ambos calados: - ela com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; ele fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas vieram logo, muito precipitadamente: - Quando tinha ele chegado? Se sabia que ele estava em Lisboa? Como soubera a morada dela?

Chegara na véspera no paquete de Bordéus. Perguntara no ministério; disseram4he que Jorge estava no Alentejo, deram-lhe a adresse...

- Como tu estás mudada, Santo Deus!

- Velha.

- Bonita!

- Ora!

E ele, que tinha feito? Demorava-se?

Foi abrir uma janela, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Ele no sofá muito languidamente; ela ao pé, pousada de leve à beira de uma poltrona, toda nervosa.

Tinha deixado o "degredo" - disse ele. - Viera respirar um pouco à velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. O último ano em Paris! - Vinha de lá, daquela aldeola de Paris! - Falava devagar, recostado, com um ar íntimo, estendendo sobre o tapete, comodamente, os seus sapatos de verniz.

Luísa olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabelo preto anelado havia agora alguns fios brancos; mas o bigode pequeno tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrépido; os olhos quando ria, a mesma doçura amolecida, banhada num fluido. Reparou na ferradura de pérola da sua gravata de cetim preto, nas pequeninas estrelas brancas bordadas nas suas meias de seda. A Bahia não o vulgarizara. Voltava mais interessante!

- Mas tu, conta-me de ti! - dizia ele com um sorriso, inclinado para ela. - És feliz, tens umpequerrucho...

- Não - exclamou Luísa rindo. - Não tenho! Quem te disse?

- Tinham-me dito. E teu marido demora-se?

- Três, quatro semanas, creio.

Quatro semanas! Era uma viuvez! Ofereceu-se logo para a vir ver mais vezes, palrar um momento, pela manhã...

- Pudera não! És o único parente que tenho agora...

Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancólica; falaram da mãe de Luísa, a "tia Jojó", como lhe chamava Basílio. Luísa contou a sua morte muito doce, na poltrona, sem um ai...

Onde está sepultada? - perguntou Basílio com uma voz grave; e acrescentou puxando o punho da camisa de chita: - Está no nosso jazigo?

- Está.

- Hei de ir lá. Pobre tia Jojó!

Houve um silêncio.

- Mas tu ias sair! - disse Basílio de repente, querendo erguer-se.

- Não! - exclamou. - Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia tomar ar. Não saio, já.

Ele ainda disse:

- Não te prendas...

- Que tolice! Ia à casa de uma amiga passar um momento.

Tirou logo o chapéu; naquele movimento, os braços erguidos repuxaram o colete justo, as formas do seio acusaram-se suavemente.

Basílio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:

- Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... Lembras-te?... Ainda tenho esseprivilégio exclusivo, creio eu...

Ela riu-se.

- Decerto que não...

Basílio disse então, lentamente, fitando o chão:

- Ah! Outros tempos!

E pôs-se a falar de Colares: a sua primeira idéia, mal chegara, tinha sido tomar uma tipóia e ir lá; queria ir ver a quinta; ainda existiria o balouço debaixo do castanheiro? Ainda haveria o caramanchão de rosinhas brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma asa quebrada?...

Luísa ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brasileiro; sobre a estrada havia um mirante com um teto chinês, ornado de bolas de vidro; e a velha casa morgada fora reconstruída e mobilada pelo Gardé.

- A nossa pobre sala de bilhar, cor de oca, com grinaldas de rosas! - disse Basílio; e fitando-a: Lembraste das nossas partidas de bilhar?

Luísa, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos para ele; disse sorrindo:

(continua...)

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