Por Eça de Queirós (1925)
Carvalho e Godofredo tinham trocado um olhar. E Carvalho teve esta frase infeliz:
— Pois é pôr uma coisa dessas que nós cá vimos...
E acrescentou:
— O Alves teve um desgosto...
E, diante do olho arregalado do Medeiros, Godofredo sentiu no fundo a garganta sufocada pelo seu ridículo... Sentiu-se pertencendo a essa tribo grotesca de maridos traídos, que não podiam entrar em casa sem que, de dentro, escapasse um amante. E era assim pôr toda a cidade, uma infâmia pelos cantos, amantes que fugiam e amantes apanhados. Ele apanhara o seu. O outro marido não teria apanhado, se entrasse na cozinha? O dia antecedente fora terrível... E parecia-lhe ver em toda a cidade esta sarabanda, de amantes escapulindo-se, de maridos apanhando-os, um chassez-croisez de homens, em torno das saias das mulheres... E agora sentia uma fadiga, um horror de tornar a contar a sua história. Mas os olhos do Medeiros, a face do Medeiros, esperavam: e ele terminou pôr dizer, com um ar exausto:
— Foi ontem. Apanhei a Ludovina com o Machado.
— Caramba! – exclamou o Medeiros dando um pulo na cama.
E deitando fora a ponta do cigarro, tomando vivamente outro, quis saber os detalhes. E foi o Carvalho que os deu, falador agora, gozando o seu papel, com aquela confiança de marido dum estafermo rico que ninguém jamais tentava. Contou tudo, enquanto, esmagado sobre uma cadeira, com o chapéu alto ainda na mão, Godofredo ia aprovando com a cabeça.
— Deixa ver a carta – terminou pôr dizer o Carvalho.
E Godofredo tirou-a do bolso, o outro leu-a a meia voz, pela Segunda vez o marido ouviu voz estranha murmurar aquelas palavras da sua mulher: “Ai Riquinho da minha alma, que tarde a de ontem...”
E Medeiros, em camisa, repetia a frase, lembrando-se dos olhos negros de Ludovina, do seu papel, revirando-o também em todos os sentidos como o outro fizera.
E subitamente veio-lhe um furor terrível contra o Machado. Que diabo, já era necessário ser canalha! Enfim, ela tinha culpas no cartório. Quando elas queriam, que diabo, não se podia ser José do Egito... Mas nunca com a mulher dum amigo íntimo, e de mais a mais dum sócio...
— Isso pede sangue – disse ele, excitado, saltando para o meio do quarto em camisa, com os pés nas chinelas.
Godofredo exclamou, ressalvando logo a sua coragem:
— Eu queria um duelo de morte, mas logo a sua coragem:
Então Carvalho apelou para o amigo Medeiros olhou-os, espantado. Não, decerto que não. Nem havia motivos para isso, nem...
Era a Segunda vez que ele ouvia aquela razão que não havia motivo: e então barafustou:
— Não há motivo! Então qual é o motivo bastante para que dois homens se matem?...
— Um escarro na cara, ou uma coisa dessas – disse com autoridade o Medeiros que, ainda em camisa, dava à pressa uma penteadela no cabelo.
Godofredo queria argumentar, mas o outro, voltando-se, com o pente na mão, terminou a questão:
— Mesmo que houvesse motivo, eu uma coisas dessas não aceito. Numa dessas não me meto...
— Aí tens tú! – exclamou Carvalho em triunfo.
— Que disse eu? Ninguém quer uma responsabilidade dessas... Eu, de mais a mais, com a mulher de esperanças... Olha que brincadeira.
Um momento Alves ficou como abatido. E todavia sentia um começo de alívio, como se parte de toda aquela indecisão em que estava desde a véspera desaparecesse, e alguma coisa se fixasse. Agora estava decidido que não haveria sortes, nem acasos; que não haveria morte de homem; e em toda aquela atarantação em que até ali estivera, isto formava um ponto fixo, uma base, uma decisão, em que se poderia apoiar. E não era ele que o decidira: eram os seus melhores amigos, que raciocinavam a sangue-frio. Mas, em todo o caso, posta de parte a morte dum deles, alguma coisa se havia de fazer.
— Que aconselham então vocês, que se há-de fazer? Eu não hei-de ficar assim, de braços cruzados...
Medeiros, então, de pé no meio do quarto, em camisa, com as canelas magras à mostra, os pés numas grandes chinelas, exclamou, com solenidade:
— Queres pôr a tua honra nas minhas mãos?
Está claro que queria, não estava ali para outra coisa.
— Bem – exclamou Medeiros. – Então não tens mais que pensar. Deixa-te levar, nós arranjaremos tudo.
E foi para dentro, para um cubículo, onde o ouviram lavar os dentes, bochechar, fazer uma tempestade dentro da bacia.
Godofredo porém não parecia satisfeito, aproximou-se da porta do cubículo, queria ainda saber...
— Não tens nada que saber – exclamou de dentro o outro, lavando-se, com um ruído de esponja e água... – Nós também não podemos saber. Temos de ir primeiro ao Machado, ver o que ele diz, entendermo-nos com as testemunhas dele, etc.... Tu vais para casa, e não saias até que nós apareçamos... E deixa-nos aí tipóia, ouviste, para dar esses passos todos... Domingos, escova a sobrecasaca preta; e calças pretas... Tudo de preto...
Ouvindo isto, Carvalho deu um olhar ao seu próprio fato de cheviot claro. Mas ele não era dessas pieguices de toilettes : com uma camisa lavada em cima da pele, um homem estava decente para ir a toda a parte.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.