Por Camilo Castelo Branco (1862)
As minhas averiguações vieram aos seguintes resultados: Paula estava prometida a um fidalgo do Alentejo, seu primo segundo, e amava com quantas provas se justifica o amor, um conde. Este conde devia ser o sujeito mencionado no diálogo de Eufémia e Caetano, aquele fino amante que levou o frango assado com recheio dos suspiros da cozinheira. O conde pensava que a dedicação de Paula sem reserva lhe assegurava um casamento rico; ela, porém, do sacrifício reservara o que não podia dar nem tinha para dar - o coração.
Um indivíduo que por nome não perca requestou Paula, quando o conde a julgava mais avassalada e perdida de amor. Não sei se a comoveu com
Festões, grinaldas, passarinhos, frutos.
O que afoitamente certifico é que o conde foi traído e caiu das nuvens quando viu escorregar por uma corda, das janelas de Benfica, um sujeito que era um dos seus quarenta amigos íntimos. O amante vilipendiado vingou-se divulgando o mais secreto da sua intimidade com Paula. A sociedade espantou-se no primeiro dia da nova e no segundo esqueceu-se a ponto de redobrarem os adoradores em redor de Paula e recrudesceram as invejas das damas, que ao mesmo tempo a denegriam.
Tudo isso se passou nos três meses da minha ausência.
Quando me narraram miudezas destes factos, contados pela rama, estava eu em S. Carlos, e D. Paula numa frisa. Achei-a mais danosa. O Demónio triunfa às vezes, aformosentando o vício. A candura nem sempre é bela. Há rostos angelicamente inocentes que dão ares de idiotismo. Tem o crime uns resplendores do Inferno que reverberam nas caras e as alindam. Assim o pensava eu de Paula, que seduzia diabolicamente com seu gracioso despejo.
E o mais é que me fitava com magnética sobranceria, e eu a ela com ignóbil humildade. Todo o homem tem suas intercadências de parvo, de desprezível e de baixeza. A mim me quer parecer que lhe mandava outro periquito, se abro a Primavera do sedutor Castilho naquela noite! Entendam lá o homem!
É certo que dormi sobressaltado e acordei a pensar nela. É engraçada coisa o modo como eu me queria a mim mesmo explicar a renascença do antigo amor, para me não envergonhar da razão, que me arguia de homem sem brios. Dizia eu, entre mim, que era honorífico vingar-me da afronta e que a vingança devia ser simulada com aparências de amor. Planeava levá-la ao escândalo, exibi-la à irrisão pública e lançar pregão do meu despique; quando porém ideava estas sordícias, indignas do meu género brando, imaginava ao mesmo tempo que, chegado o lance da vingança, a comprimiria ao seio e me faria sacerdote da vítima.
Nestes e noutros pensamentos me ocorreu o dia seguinte, e outro, até chegar a noite em que D. Paula tinha camarote. Namorei-a sem recato, sem biocos, sem velhacaria. Odiei os rapazes que vinham segredar-me os sabidos escândalos; cheguei a defendê-la por negação, e a benquistar a gargalhada dos tafuis, que a não contemplavam com menos arrebatamento que eu.
Ora, devo confessar que Paula encarava em mim com sorrir tão desacostumado, e uns trejeitos tão esquisitos, que só a minha boa-fé, irmã gémea da inépcia, era capaz de aceitá-los como benignos e amoráveis. Além de que, reparei algumas vezes que ela falava ao ouvido da prima Piedade, e riam ambas à socapa, sem olhar para mim, senão três minutos depois de espirrarem a risota. Agora é que eu penso circunspectamente na passagem.
D. Maria da Piedade era uma linguareira com graça sarcástica, um folhetim de génio mordente, temida dos elegantes, a quem ela costumava crismar com epítetos truanescos. A mim sabia eu que ela me chamava Periquito, metendo a riso a dádiva sentimental, que seria minha glória aos olhos de uma mulher sensível. Não duvido apostar que a leitora, se eu alguma vez tiver uma leitora, simpatizará com a minha memória por ter visto a candura e lhaneza de coração com que eu ofertei à ingrata a avezinha. Estas singelezas do amor são as que mais enternecem as boas almas. Dê-me a leitora uma lágrima, que eu não quero outra vingança das mulheres que me escarneceram a poética simplicidade, simbolizada naquele periquito.
À saída do teatro, notei que Paula me encarara com o leque de dentro da carruagem. Rarefez-se a nuvem negra da zombaria. Recolhi-me feliz ao Grémio Literário, e fui nessa noite eloquente em teorias de amor.
Às duas horas do dia seguinte, quando eu estava escrevendo as comoções alegres da noite desvelada, recebi uma carta da posta-interna. Conheci a letra de Paula. Parou-me o sangue no peito; tremiam-me as mãos como se as tomasse o horror de profanarem a missiva do anjo. Abri, e vi que eram versos. Versos! O idioma primitivo do coração! Os suspiros metrificados! A expressão suprema do amor que se envergonha de expandirse em prosa!... Ó júbilo intumescente!
Li:
Ao terno cantor, que n’alma
Tem da amante o nome escrito,
Solitária amante envia
Saudades do periquito.
“Será isto escárnio?!”, exclamei. Respondeu-me a seguinte quadra:
Ao meigo vate, que eu amo
Com amor casto e infinito,
Manda um doce e ardente beijo
O saudoso periquito.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.