Por Camilo Castelo Branco (1864)
A morgada não deu peso a tal omissão, nem achou razoável o sentimentalismo da fidalga; irritou-se mais por lhe não responderem ao artigo essencial da sua carta, que era apressar-se o casamento, visto que a sua saúde corria perigo.
Eleutério, cada vez mais assíduo na grade, já tinha uma outra judia cor de alecrim, outras pantalonas apolainadas, um colete de veludo escarlate e um cavalo de marca,.29 aparelhado a primor e obediente ao freio para todo o género de upas e galões. Teodora gostou disto, porque um dos seus anelos era a equitação: sonhara-se muitas vezes cavalgando selim raso, trajada em amazona, com as dobras do amplo véu ondulando no frenesi de desapoderado galope. O cavalo - faz pejo dizê-lo!- foi muito no determinarse a morgada a responder categoricamente às tímidas perguntas do primo Eleutério.
Assim foi. Ajeitado o ensejo, a menina, balbuciando com artificial pudor, disse queestava disposta a tomar estado, visto que a idade lho permitia. Eleutério, perplexo de ouvi-la, sem ousar supor-se o noivo escolhido, sopesava o bofe direito cuidando que estala ali o coração; quando, porém, a prima lhe disse: "Faço aquilo que meu tio Romão quiser... Caso com quem ele determinar...", Eleutério expediu um ai de desafogo e riuse alvarmente, esfregando as mãos.
Por amor deste sucesso vim eu a desenganar-me de que a natureza anda muito abastardada e contrafeita no teatro e nos romances. Casos análogos daquele tenho-os visto remedados com trejeitos e exclamações inversas da lógica da natureza. No romance, todos os Artures ou Ernestos, ao saberem que são amados, empalidecem, suam, ajoelham, declamam, quando não podem oscular com frementes soluços a mão da mulher amada. No teatro, em lances idênticos, tenho visto desmaiar sujeitos, que matariam a futura sogra e o próprio pai se lhe atravancassem o caminho da felicidade.
Rir às cascalhadas é que eu ainda não vi amante ditoso nenhum no instante solene de se crer amado. Eleutério Romão dos Santos é o primeiro modelo que a natureza me oferece.
E a verdade é só uma. Ao beijo da felicidade que endoida e transporta, o homem, que não estoura em explosões de riso, deve de estar mui calcinado de coração.
Dramaturgos e romancistas, por via de regra, são umas pessoas áridas, frias e falsas, que inventam a natureza, depois que desbaratam a sensibilidade, exagerando as generosas comoções que receberam dela.
Teodora gostou medianamente dos modos de seu primo. Antes ela o queria falsificado no molde dos romances que a menina transmontana lhe emprestara; mas, ainda assim, aceitou com paciência a linguagem desartificiosa daquela ingénua e bruta alma.
Aquietado do seu arrebatamento, Eleutério Romão dos Santos falou assim:
- Cheguei ao que desejava, graças a Deus! A pena que eu tenho é não ser tão rico como Sansão. (O padre Hilário quisera leccioná-lo em Sagrada Escritura: falou em Salomão, ao que se presume, e o rapaz, assim como odiava o soletrar palavras de três silabas, deve supor-se que também em matéria de história preferia os indivíduos de duas aos de três sílabas.)
E continuou:
- Se eu fosse tão rico como Sansão, prima Teodora...
Nisto como lhe não ocorresse ideia nenhuma com que fechar a oração condicional, levou a mão à testa e roçou a epiderme com o aro de um robusto anel que trazia no dedo indicador. Ideia magnífica! Tirou o anel e lançou-o ao regaço de Teodora. Tinha o anel um grosso topázio, engastado num circulo de pérolas- Teodora examinou o objecto e, enganada pela circunferência do aro, esteve quase a pensar que era uma pulseira.
- Faz favor de encaixar no dedo, prima - disse Eleutério.
- Não me serve - disse a menina,
- E que está magrinha das mãos... - replicou o moço. - Pois guarde-o, e quando engordar o porá no dedo. Lá que a prima há-de engordar com os ares de Tibães, isso é que não falha. Vamos a tratar da dispensa e acabar com isto. O que eu queria era ser tão rico como Sansão.
VIII
As filhas do desembargador Figueiroa rodeavam o primo Afonso de agrados, de gozos familiares e recreios, tendendo tudo a diverti-lo de sua taciturna melancolia. A senhora de Ruivães, escrevendo a seu irmão, pedia-lhe que se descuidasse em matéria de estudos e tomasse muito a peito a distracção do filho, qualquer que fosse o gasto que ela houvesse de desembolsar. Os prazeres da sociedade eram temporãos ainda para a idade de Afonso. Bailes e teatros atediavam-no só em cuidar que havia de ir afrontar-se com centenas de mulheres, entre as quais nem sequer em sombra se lhe oferecia, como agro alimento de saudade, a imagem de Teodora. O pudor dos dezassete anos, a índole nada comunicativa, o receio de ser posto a riso por suas primas, encrudesciam, na soledade silenciosa, a paixão do moço. Comprara-lhe o tio, por ordem de sua irmã, um cavalo. Afonso recebeu a dádiva com satisfação, por poder assim, quando lhe aprazia, alongar-se da cidade e refugiar-se em alguns arvoredos das quintas limítrofes de Lisboa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.