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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra dum agüeiro.

— Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me! — bradou Simão ao ferrador.

— Pois o fidalgo já aí anda!? Então está fechado o cerco. Eu cá vou fazer de furão. Se este nos escapa, não há nada seguro neste mundo!

Não se enganaram. O criado de Baltasar Coutínho, quando se atirara desamparado à brenha, deslocara um joelho, e caíra atordoado. O areeiro não examinou o efeito do tiro, porque atirara à ventura, e achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do aturdimento da queda, o homem arrastou-se até encontrar um cercado de árvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os melros cacarejassem, esvoaçando, o criado de Baltasar retrocedeu para o mato, cuidando que aí escaparia; mas o areeiro jogava enormes calhaus em todas as direções, e alguns acercavam mais que as balas do seu bacamarte. João da Cruz tirou do bolso da jaqueta um podão, e começou a cortar a selva de carvalhas novas e giestas que se emaranhavam em redor do esconderijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco fruto do trabalho, disse ao areeiro:

— Petisca lume, vai ali dentro buscar um pouco de restolho seco, e vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão há de morrer assado.

O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo do restolho em que o areeiro andava apanhando palha e Simão esperava o desfecho da montaria. Correram a um tempo o areeiro e o acadêmico sobre ele, O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigaria àquela desgraça. Já a coronha do bacamarte do areeiro lhe ia direita ao peito, quando Simão lhe reteve o braço.

— Não se bate num homem ajoelhado! — disse o moço — Levanta-te, rapaz!

— Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada e estou aleijado para a minha vida!

Neste comenos chegou o ferrador, e exclamou:

— Pois esse tratante ainda está vivo!?

E correu sobre ele com o podão.

— Não mate o homem, senhor João! — disse o filho do corregedor'.

— Que o não mate! Essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar... hein?

— Com a forca?! — atalhou Simão.

— Pudera não! Quer que este homem fique para ir contar a história? Acha bonito? Lá vossa senhoria, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu, que sou ferrador, posso contar que desta vez tenho o baraço no pescoço. Não me faz jeito o negócio. Deixe-me cá com o homem...

— Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha não nos pode fazer mal.

— O quê! — redargüiu o ferrador — vossa senhoria é doutor, saberá muito, mas de justiça não sabe nada. e há de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha para guiar a justiça na devassa. As duas por três, uma testemunha de vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castrod'ALre a mexer os pauzinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.

— Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para Castrod'Aire — exclamou o homem.

— Deixe-o ficar, João da Cruz... vamos embora...

— Isso! — acudiu o ferrador — Chame-me João da Cruz... para este maroto ficar bem certo de que sou o João da Cruz... Como efeito, não sei o que me parece vossa senhoria querer deixar com vida uma alma do diabo que lhe deu um tiro para o matar.

— Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseráveis que não resistem.

— E, se ele o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor doutor. — Vamos embora — tornou Simão — deixemos por aí esse miserável.

Mestre João cismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com descontentamento:

— Vamos lá. .. Quem o seu inimigo poupa nas mãos lhe morre.

Tinham já saído do plano e saltado o tapada, e iam descendo para a estrada, quando o ferrador exclamou:

— Lá me ficou a minha clavina encostada à sebe... Vão indo que eu venho

já.

O areeiro conduzia o cavalo, que pacificamente estivera tosando a relva das paredes marginais da estrada, quando Simão ouviu gritos. Conjeturou com certeza o que era.

— O João lá está a fazer justiça! — disse o areeiro — Deixá-lo lá, meu amo, que ele é homem que sabe o que faz.

João da Cruz apareceu daí a pouco, limpando com fenos o podão ensangüentado.

— Você é cruel, sr. João — disse o acadêmico.

— Não sou cruel — disse o ferrador — o fidalgo está enganado comigo; é que, diz lá o ditado, morrer por morrer, morra meu pai, que é mais velho. Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto faz amassar um alqueire como três. As obras devem ser acabadas, ou então o melhor é não se meter a gente nelas. Agora levo a minha consciência sossegada. A justiça que prove, se quiser; mas não há de ser porque lho digam aqueles dois que eu mandei de presente ao diabo.

Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se ter ligado com tal homem.

CAPÍTULO VII

(continua...)

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