Por Camilo Castelo Branco (1869)
Francisco adorava sua irmã; todavia, para estar triste, escondia-se dela. Joana queria que todos agradecessem a Deus, quando se levantavam com saúde, e se ajuntavam à volta da mesa do almoço. Se via triste o marido ou irmão, dizia: “Sois ingratos ao Senhor. Se um de nós adoecesse, e a doença fosse mortal, com que saudades nos lembraríamos destes dias tão quietos, tão felizes! Pensai na tristeza da família onde morreu um irmão; pensai na casa onde há fome e frio, e dizei-me se não é ingratidão e pecado uma tristeza causada não sei porque!”
Quem primeiro revelou a Francisco o amor de Ângela foi Joana. Acabou de lhe contar a confidencia da fidalga, e disse:
― Agora, Francisco, é necessário que vás para o Porto, embora a aula se abra em outubro. Deixa que o tempo desfaça esta criancice da D. Ângela. Eu disse-lhe o que devia: mas ela respondeu-me que havia de ser tua esposa, se a tu amasses. Já viste inocência assim? Eu fiquei espantada a olhar para a menina, e de repente passou-me pelo espírito uma nuvem negra. Deus me livre que tu, meu querido irmão, não pudesses vencer-te, se chegasses a imaginar possível casar com a filha do general Noronha, com a sobrinha de D. Beatriz, tão soberba da sua fidalguia!
Francisco escutou sem assombro e sem interrompê-la a extensa revelação de Joana. Passados momentos de serena reflexão, disse:
― Eu sabia isso...; ainda assim, dás-me uma triste novidade.
― Sabia-lo? Por quem?!
― Por mim. Tinha-mo dito a minha alma. Eu pensava nela... – vê que doidice! – pensava em Ângela imaginando a felicidade do homem que ela amasse. Era uma inveja que me envergonhava, por isso ta não confessei. Até de mim a quisera eu esconder; mas o absurdo lutava com o absurdo, e não sei quem venceu... Um dia sonhei que a via chorando, e acordei a chorar. Deste este momento, senti que adorava Ângela. Isto foi há três anos, lembras-te? Fui para o Porto, e lá fiquei todo ano. Quando voltei e a vi, desejei morrer. Um dia entrou-me no coração a certeza de que era amado... Por quem? perguntas tu, Joana; e bem vejo que estás sorrindo da vaidade do teu pobre irmão!... eu te digo como foi... Estávamos na igreja matriz, nas trevas do sábado santo. Eu sabia em que teia de altar ela tinha ajoelhado; mas entrevia-lhe escassamente o vulto. Ao tanger da campainha, fez-se a claridade súbita no templo, e vi os olhos dela cravados nos meus, que se abaixaram respeitosos. Sabes tu que delírio de piedade me assalteou? Ajoelhei, quando todos se levantavam e davam boas-festas. Ajoelhei no maior sombrio da nave... e chorei. Aqui tens a revelação que os olhos de Ângela ensinavam à minha alma... Que pensas tu agora de mim? – prosseguiu o moço, após longa pausa de reconcentração. – Receias que eu apareça diante de Ângela com o colo erguido pela vaidade de ser amado? Cuidarás que eu principiei a acastelar ilusões por esse céu além, e a descer delas para o paradoxo dum casamento? Mal me conheces então, Joana! Vê se me compreendes isto... Acho sempre o teu espírito aberto a certas coisas confusas que eu digo, e não sei dizer mais inteligivelmente. Olha, minha irmã, eu não sei se o estudo envelhece o coração; figura-se-me que sim. A alma não; que essa é imortal, inalterável e inviolável à destruição do tempo. Em mim conheço o coração atrofiado, e a alma viventissima. Como homem de alma adoro Ângela, ilumino-a à luz que radia das minhas crenças em Deus. Como homem de coração não a sacrificaria, nem me sacrificaria. Impulso que me arroje a querê-la ouvir dizer que me ama não o sinto; desejo de encontrar aquela bela imagem, no silêncio do espaço em que a tenho visto nas minhas noites de vigília, entender os murmúrios que ressoam o seu nome, vesti-la das aéreas roupagens que sonhou a exaltada poesia do oriente, é isso, é isso o meu amar, o meu delirar, a minha inofensiva vertigem, que não tem nada que ver com o nascimento, nem com os haveres de Ângela. Não sei quem é, não conheço, não quero conhecer a filha do general Noronha, a rica herdeira, a fidalga que tem no seu paço de Gondar retratos de avós que fundaram a monarquia portuguesa. Quem eu conheço e adoro é uma mulher que se chama Ângela, que tem no rosto uma luz celestial, e essa luz ma representa de geração divina. Ali há sinal de origem mais alta. Eu vou buscar-lha no céu; não a procuro na fundação da monarquia. Porque receias tu, então, que eu perturbe o sossego da fidalga opulenta, se eu não lhe quero nem os brasões nem o oiro? Pode ela dar-me a alma sem lesar os seus pergaminhos nem declinar o direito de suceder nos castelos dos senhores feudais seus avós? Pode. Então, minha irmã, deixa ao pobre sonhador a sua inocente felicidade, e faz de conta que o defensor de Ângela não é o anjo da guarda, sou eu.
XI SONHOS E ESPERANÇAS
Como foi que a vigilância dos dois anjos-custódios de Ângela deixaram passar a primeira carta?
Denunciaremos à moral pública certa fragilidade do estudante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.