Por Eça de Queirós (1888)
Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as tapeçarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na calçada...
Carlos ficára cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeça entre as mãos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe resoavam em redor, adocicadas e lentas, só lhe restava o sentimento atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que cahia de repente, se fazia em pedaços na lama, salpicando-o todo de nodoas intoleraveis... Não soffria: era simplesmente um assombro de todo o seu sêr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de rr; as duas almas rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braços uma mulher que não conhecia, e que se chamava Mac-Gren!
Mac-Gren! era a Mac-Gren!
Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido, tremulo, ancioso, seguindo á maneira d'uma estrella aquella mulher, que qualquer em Paris, com mil francos no bolso,
poderia ter sobre um sofá, facil e núa! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a emoção religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S. Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mãos, que elle julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de lã no bordado, n'um constante trabalho de mãi laboriosa e recolhida; a veneração espiritual com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle á tunica d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha vergonha agora das flôres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha das «excellencias» que lhe déra!
E seria tão facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas quê! a sua paixão absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas
nevoas douradas que dão ás montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua intimidade, o homem que na rua a fitára com um fulgor de desejo na face? Porque é que nas suas longas conversas, nas manhãs da rua de S. Franrisco, não fallára jámais de Paris, dos seus amigos e das coisas da sua casa? Porque é que ao fim de dois mezes, sem preparação, sem todas essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma flôr, se lhe abandonára de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o primeiro «amo-te»?... Porque lhe aceitára uma casa já mobilada, com a facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda, pequeninas, mas que não teriam escapado ao mais simples: joias
brutaes, d'um luxo grosseiro de cocotte: o livro da Explicação de sonhos, á cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora até o ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da paixão - que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabára, providencialmente! A mulher que elle amára e as suas seducções esvaíam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas a Mac-Gren... O seu amor fôra, desde que a vira, como o proprio sangue das suas veias; e escoava-se agora todo através da ferida incuravel e que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!
Ega appareceu á porta do salão, ainda pallido:
- Então?
Toda a cólera de Carlos fez explosão:
- Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa mais immunda! - O homem pediu-te dinheiro?
- Peor!
- E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro, - que assim repetidas e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhação e de nojo.
- Já por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim, cruzando violentamente os braços diante do Ega, que se abatera no sofá, assombrado. Pódes tu conceber um caso mais sordido? E bem mais burlesco? É para estalar o coração. E é para
rebentar a rir. Estupendo! Ahi, nesse sofá, ahi onde tu estás, o homemzinho, muito amavel, de flôr ao peito, a dizer: «Olhe que aquella creatura não é minha mulher, é uma creatura que eu pago...» Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito paga-a... Quanto é o beijo? Cem francos. Ahi estão cem francos... É de morrer!
E recomeçou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda n'uma brutalidade maior...
- Que te parece, Ega? Dize lá. Que fazias tu? É horrível, heim?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.