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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.

- Manda entrar... Para o salão grande!

Baptista apontou para o jaquetão de flanella com que Carlos tinha almoçado, e perguntou baixo se s. exc.ª queria uma sobrecasaca.

- Traze.

Sós, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.

- Não é um desafio, está claro, balbuciou Ega.

Carlos não respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis «Hotel Bragança»... Baptista voltára com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficára de pé junto da mesa, limpando estupidamente as mãos ao guardanapo.

No salão nobre, forrado de brocados côr de musgo d'outono, Castro Gomes examinava curiosamente, com um joelho apoiado á borda do sofá, a esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e forte no seu vestido de velludo escarlate de caçadora ingleza. Ao rumor dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapéo branco na mão, sorrindo, pedindo perdão de estar assim a pasmar familiarmente para aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido, indicou-lhe o sofá. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um botão de rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho; no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura, de fadiga.

- Eu possuo tambem em Paris um Constable muito chic, disse elle, sem embaraço, n'um tom arrastado, cheio de rr, que o sutaque brazileiro adocicava. Mas é apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. É um pintor que não me diverte, a dizer a verdade... Todavia da muito tom a uma galeria. É necessario tel-o. Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle modo affavel, uma idéa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa, pondo-lhe já nos olhos largos que não tirava de sobre o outro, uma irreprimivel chamma de cólera. Carlos Gomes decerto não sabia nada! Chegára, desembarcára, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o marido, era novo, tivera-a já nos braços - a ella! E agora alli estava, tranquillo, de flôr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse.

No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma entrevista...

- O motivo porém que me traz é tão urgente, que cheguei esta manhã ás dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.

Fez-se um allivio infinito no coração de Carlos. Ainda não vira então Maria Eduarda, aquelles seccos labios não a tinham tocado! E sahiu emfim da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de leve a cadeira.

Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapéo, tirára do bolso interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e, vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na mão, muito tranquillamente:

- Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo... Mas não creia v. exc.ª que foi elle que me levou a atravessar á pressa o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem afirmar-lhe que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indiferente... Aqui o tem. Quer v. exc.ª lêl-o, ou quer que eu leia?

Carlos murmurou com um esforço:

- Leia v. exc.ª

Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.

- Como v. exc.ª vê, é a carta anonyma em todo o seu horror: papel de mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro reles. Um documento odioso. E aqui está como elle se exprime: «Um homem «que teve a honra de apertar a mão de v. exc.ª» Eu dispensava a honra... «que teve a hora de apertar a mão de v. exc.ª e d'apreciar o seu «cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher é, á vista de toda a «Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo da «Maia, que vive n'uma casa ás

Janelas Verdes, chamada o Ramalhete. Este «heroe, que é muito rico, comprou expressamente uma quinta nos Olivaes, «onde installou a mulher de v. exc.ª e onde a vai vêr todos os dias, ficando «ás vezes, com escandalo da visinhança, até de madrugada. Assim o nome «honrado de v. exc.ª anda pelas lamas da capital. » É tudo o que diz a carta; e eu só devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto ella diz é incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia é pois publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa senhora. Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braços, n'uma aceitação inteira de todas as responsabilidades:

- Não tenho então nada a dizer a v. exc.ª senão que estou ás suas ordens!...

(continua...)

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