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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

O cônego assim o ouvira. Então indignaram-se contra essa turba de mações, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruição de tudo o que é respeitável - o clero, a instrução religiosa, a família, o exército e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaçada por monstros desencadeados! Eram necessárias as antigas repressões, a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a fé e o respeito pelo sacerdote.

- Aí é que está o mal, disse Amaro, é que nos não respeitam! Não fazem senão desacreditar-nos...

Destroem no povo a veneração pelo sacerdócio...

- Caluniam-nos infamemente, disse num tom profundo o cônego.

Então junto deles passaram duas senhoras, uma já de cabelos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma criaturinha delgada e pálida, de olheiras batidas, os cotovelos agudos colados a uma cinta de esterilidade, pouff enorme no vestido, cuia forte, tacões de palmo.

- Cáspite! disse o cônego baixo, tocando o cotovelo do colega. Hem, seu padre Amaro?... Aquilo é que você queria confessar.

- Já lá vai o tempo, padre-mestre, disse e pároco rindo, já as não confesso senão casadas!

O cônego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o seu ar poderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o chapéu a um cavalheiro de bigode grisalho e óculos de ouro, que entrava na praça, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guarda-sol debaixo do braço.

Era o Sr. conde de Ribamar. Adiantou-se com bonomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou "o seu amigo, o Sr. cônego Dias, da Sé de Leiria". Conversaram um momento da estação, que já ia quente. Depois o padre Amaro falou dos últimos telegramas.

- Que diz vossa excelência a estas coisas de França, senhor conde?

O estadista agitou as mãos, numa desolação que lhe assombreava a face:

- Nem me fale nisso, Sr. padre Amaro, nem me fale nisso... Ver meia dúzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias que tenho estado doente.

Os dois sacerdotes, com uma expressão consternada, uniram-se à do estadista.

E então o cônego:

- E qual pensa vossa excelência que será o resultado?

O Sr. conde de Ribamar, com pausa, em palavras que saíam devagar, sobrecarregadas do peso das idéias, disse:

- O resultado?... Não é difícil prevê-lo. Quando se tem alguma experiência da História e da Política, o resultado de tudo isto vê-se distintamente. Tão distintamente como os vejo a vossas senhorias. . Os dois sacerdotes pendiam dos lábios proféticos do homem do governo.

- Sufocada a insurreição, continuou o senhor conde olhando a direito de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros históricos que a sua pupila, ajudada pelos óculos de ouro, penetrava - sufocada a insurreição, dentro de três meses temos de novo o império. Se vossas senhorias tivessem visto como eu uma recepção nas Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do império, haviam de dizer, como eu, que a França é profundamente imperialista e só imperialista... Temos pois Napoleão III: ou talvez ele abdique, e a imperatriz tome a regência na menoridade do príncipe imperial... Eu aconselharia antes, e já o fiz saber, que era esta talvez a solução mais prudente. Como conseqüência imediata temos o papa em Roma, outra vez senhor do poder temporal... Eu, a falar a verdade, e já o fiz saber, não aprovo uma restauração papal. Mas eu não lhes estou aqui a dizer o que aprovo, ou o que reprovo. Felizmente não sou o dono da Europa. Seria um encargo superior à minha idade e às minhas enfermidades. Estou a dizer o que a minha experiência da Política e da História me aponta como certo. Dizia eu...? Ah! a imperatriz no trono de França, Pio Nono no trono de Roma, aí temos a democracia esmagada entre estas duas forças sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de que se compõe a sociedade moderna, creiam que depois deste exemplo da Comuna não se torna a ouvir falar de república, nem de questão social, nem de povo, nestes cem anos mais chegados!...

- Deus Nosso Senhor o ouça, senhor conde, fez com unção o cônego.

Mas Amaro, radiante de se achar ali, numa praça de Lisboa, em conversação íntima com um estadista ilustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma ansiedade de conservador assustado:

- E crê vossa excelência que essas idéias de república, de materialismo, se possam espalhar entre nós?

O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, até quase junto das grades que cercam a estátua de Luís de Camões:

- Não lhes dê isso cuidado, meus senhores, não lhes dê isso cuidado! É possível que haja aí um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadência de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim não pode durar dez anos, etc., etc.

Baboseiras!...

Tinham-se encostado quase às grades da estátua, e tomando uma atitude de confiança:

(continua...)

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