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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Eu estou habilitado a dizer-lhes quais são os estatutos desta sociedade, pois que li __fragmentos, e verão por eles qual é o espírito dela e o seu objecto. A sociedade foi formada há doze anos e compõe-se de bispos, vigários, diáconos e todos os que se preparam para as ordens santas. Pela regra dos estatutos, cada membro é obrigado a confessar-se todas as vezes que julgue a consciência sobrecarregada; fazer um retiro todos os anos; benzer tudo o que comer; nunca se levantar mais tarde que as sete e meia da manhã; nunca comer com prazer, mas só com necessidade; vestir com pobreza; não ir a teatros nem bailes, nem concertos, nem outros lugares de escândalo; nem falar mal de ninguém, a não ser quando isto for um dever (!); evitar as conversações frívolas e a sociedade das mulheres; nunca encarar com o rosto ou com o corpo das mulheres (!)..., etc., etc.

Vêem por estas recomendações o espírito geral da sociedade, e o que ela queria fazer da Inglaterra, se a sua influência penetrasse o povo; e é realmente inaudito que uma seita queira converter o país mais sensato, mais liberal, mais moderno, mais activo – numa espécie de Espanha devota e lúgubre do tempo de Fernando VII! Diz-se que diante da condenação geral que a opinião deu ao livro, a Sociedade da Santa Cruz o vai retirar da circulação e de certo modo renegá-lo. Isto não desculpa o espírito da sociedade e aumenta-lhe o descrédito porque lhe revela a hipocrisia.

O outro livro, Frutos da Filosofia, de que se tem vendido, diz-se, milhões de exemplares, é uma exposição semimédica e semiobscena dos meios de impedir a gravidez! Com um impudor estupendo, este folheto que a Inglaterra inteira está neste momento devorando começa por dizer que nada mais desagradável do que ter filhos; em primeiro lugar, que é um terrível encargo individual, em segundo lugar, porque o aumento da população, em desproporção com os meios de subsistência em Inglaterra, pode trazer a ruína do país. E daí segue-se, num estilo bem trabalhado e técnico, uma série de receitas medonhas para esterilizar a mulher, ou pior ainda... A gravidade do facto – é que este livro vende-se aos milhões de exemplares e que a avidez do público mostra que ele está convencido da sua utilidade e deseja aprender os seus processos. Os autores, ou antes os reprodutores, porque o livro é quase todo composto por um especialista americano, foram condenados; mas o escândalo e a publicidade do processo tiveram apenas como resultado dar ao livro uma fama insensata e enriquecer os editores, e espalhá-lo de tal modo que é raro encontrar um sujeito que não o tenha no bolso da sobrecasaca, como um manual cómodo e à mão de desmoralização e de deboche.

Passemos à sociedade. O leão do dia em Londres é o general Grant, ex-presidente dos Estados Unidos. Festas, bailes, recepções, solenidades, tudo o que se pode fazer para celebrar um herói lhe tem sido prodigalizado, com uma abundância forçada, ia quase a dizer afectada. O ministro dos Estados Unidos deu-lhe um grande jantar, a que assistiu o príncipe de Gales. A feição característica deste jantar foi que, sendo dado pelo ministro americano, na legação americana, a um presidente americano, havia tudo, excepto americanos! Diz-se que a razão é que o ministro não encontrara em toda a colónia americana que habita Londres ninguém à altura de se sentar à mesa com o príncipe de Gales! Isto tem causado em Londres uma doce hilaridade. O que mais impressiona, parece, no general Grant é a sua taciturnidade. E quase impossível arrancar-lhe uma palavra. Tem atravessado as festas, os bailes, os jantares, com os lábios cerrados como um trapista. No jantar que lhe deu o duque de Wellington esteve, até à sobremesa, imóvel e mudo: e de repente, dirigindo-se ao duque, perguntou-lhe no meio de um silêncio solene:

– Qual foi o maior número de soldados que seu pai comandou, duque?

O duque disse que, aproximadamente, duzentos mil homens.

– E eu meio milhão – respondeu Grant.

E desde então, há quinze dias, não tornou a falar.

Madame Grant tem divertido a sociedade inglesa com alguns equívocos que se tornarão históricos. Há dias dizia no salão do príncipe de Gales:

– Tive ontem o prazer de conhecer um dos grandes homens de Inglaterra, ao que me dizem, o senhor Blackstone.

Todo o mundo arregalou os olhos. Blackstone! Quem seria?

Descobriu-se, depois de grandes averiguações, que Blackstone era simplesmente – Gladstone!

Um cancã de sociedade: diz-se que o príncipe de Gales estivera há dias para morrer. Depois da corrida de Ascot, tinha ido visitar um amigo a Temple House, um esplêndido parque, ao pé de Ascot.

Tinha estado a fumar um cigarro, conversando à sombra de um cedro do Líbano – e acabava de se levantar quando, com um estalo formidável, o cedro partiu e desabou!

Um minuto mais cedo e o príncipe de Gales estava com os seus antepassados. Será agoiro?

(continua...)

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