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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Foi d'este modo que Arthur se achou, por acaso, no meio que devia desenvolver as tendencias do seu temperamento, Ao principio, naturalmente, admirou sobretudo os individuos, as personalidades, a phraseologia nova, as excentricidades estranhas ; tremeu d'enthusiasmo, vendo, n'uma noite de tro. voada, na Feira, o proprio Damião tirar o relogio do bolso, um cebolão de prata, e n'uma attitude de Satan rebelde, dar cinco minutos a Deus para que o fulminasse, e, passados os cinco minutos n'um grande silencio do céu, atirar desdenhosamente o cebolño para a algibeira, dizendo com tedio : está superabundantemente provado que não ha nada lá no céu e accrescentar, olhando para as estrellas : a não ser algum pó luminoso de Deuses mortos ! » Extasiou-se deante do illustre Fonseca, que, no seu horror pelas expressões vulgares, pedia um bife no Carneiro, exclamando : Traga-me uma lasca do velho Apis, preparado segundo as formulas do progresso ! Palpitou de sympathia com o humanitario Vilhena, ouvindo-o responder a quem lhe estranhára a tristeza : Como querem vocês que o homem ria, quando a Polonia soffre ? » Mas ninguem o im- pressionou como o grande Marçal, com a sua bella face classica, a sua cabeleira, e a impassibilidade marmorea d'um Deus da Attica. Teve a gloria de o acompanhar uma noite que o Marçal ia vêr a sua amante, esposa d'um professor do lyceu. Na rua estreita, ao chegar debaixo da janella, onde se debrugava um vulto claro, o Marçal, soberbamente sereno, erguendo o rico metal de sua voz, perguntou para cima :

— O veado já sahiu

Do vulto alvo veio como um sopro subtil :

— Foi agora mesmo para o Club.

E então, desdenhoso da presença de Arthur e d'um•a familia que passava, no mesmo tom sonoro e cheio :

Deita-me então a escada de Romeu,

Que eu suba a ir beiJar-te os peitos brancos.

Estas audacias, estas palavras, pareciam a Arthur prodigiosas, d'uma raça d'homens superiores aos mortaes e anciava por poder imital-as. O que o exaltava, porém, acima de tudo, era o cavaco — aquelle faiscante cavaco do Cenaculo, em que todas as noites se formavam, fumando cigarros, novas concepções do Universo, se decidia em quatro palavras d'uma nova Ordem para a Humanidade, com uma pilheria se aniquilava a gloria d'um heroe, e em que argumentações temerarias iam abalar, no fundo dos céus, os Deuses mais poderosos. Fallavam de todas as- mulheres com o esplendoi do Cantico dos Canticos ; todo o sonho era bemvindo — e a propria realidade do mundo tangivel parecia esvaecer-se quando o Taveira, arrastando pelo quarto a capa esfarrapada, exclamava, atirando com um grande gesto lyrico os braços para o céu :

A galope, a galope, oh, Phantasia i

Plantemos uma tenda em cada estrella , ,

Então, para egualar estes genios, poder ter uma phrase n'estas discussões, Arthur começou a devorar todos os livros de Theodosio, com uma sofreguidão confusa, indo de Petrarca á Historia da Revolução Franceza, de Soto Agostinho a Balzac, começando mesmo Hegel e precipitando•se logo para as Orientaes e para a legião dos Romanticos. E assim, pouco a pouco, perdendo o culto exclusivo pela personalidade do Cenaculo, elevou-se na admiração mais vaga de personagens da Arte ou da Historia, d'epochas da Humanidade, de ciVilisações e d 'idéas.

(continua...)

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