Por Eça de Queirós (1888)
Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama. E era aquelle filho que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura, estragara o sangue da raça, cobria agora a sua casa de vexame. E alli estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de homem trahido! Vinha atirar-se para um sophá, chorando miseravelmente! Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero, cerrando os labios para que não lhe escapassem as palavras de ira e de injuria que lhe enchiam o peito em tumulto... - Mas era pae: ouvia, alli ao seu lado, aquelle soluçar
de funda dôr; via tremer aquelle pobre corpo desgraçado que elle outr'ora emballara nos braços; - parou junto de Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa, uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creança, restituindo-lhe alli e para sempre a sua ternura inteira.
- Tinha razão, meu pae, tinha razão, murmurava Pedro entre lagrimas.
Depois ficaram callados. Fóra, as pancadas successivas da chuva batiam a casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas, ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
Foi Affonso que quebrou o silencio:
- Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? Não é só chorar...
- Não sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforço. Sei que fugiu. Eu sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa numa carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana que tinha agora, e a pequena. Disse á governante e á ama do pequeno que ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando voltei, achei esta carta.
Era um papel já sujo, e desde essa manhã de certo muitas vezes relido, amarrotado com furia. Continha estas palavras:
«É uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que não sou digna de ti, e levo a Maria que me não posso separar d'ella.»
- E o pequeno, onde está o pequeno? exclamou Affonso.
Pedro pareceu recordar-se:
- Está lá dentro com a ama, trouxe-o na sege.
0 velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braços o pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e côr de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama não passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha na mão. Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora só havia alli aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braços...
- Como se chama elle?
- Carlos Eduardo, murmurou a ama.
- Carlos Eduardo, hein?
Ficou a olha-lo muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua raça: depois tomou-lhe na sua as duas mãosinhas vermelhas que não largavam o guiso, e muito grave, como se a creança o percebesse, disse-lhe:
- Olha bem para mim. Eu sou o avô. É necessario amar o avô!
E áquella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braços, desprendeu a mãosinha, e martellou-lhe furiosamente a cabeça com o guiso.
Toda a face do velho sorria áquella viçosa alegria; apertou-o ao seu largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado, enternecido, o seu primeiro beijo d'avô; depois, com todo o cuidado, foi collocal-o nos braços da ama.
- Vá, ama, vá... A Gertrudes já lá anda a arranjar-lhe o quarto, vá vêr o que é necessario.
Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se não movera do canto do sophá, nem despregára os olhos do chão.
- Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos não vemos ha tres annos, filho...
- Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
Ergueu-se, allongou a vista á quinta, tão triste sob a chuva; depois, derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com uma rosa na mão. E repetia ainda amargamente:
- Tinha razão, meu pae, tinha razão...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.