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#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

A primeira impressão que senti foi a da repulsão e do tédio. Saindo de casa poucodepois da leitura do seu periódico, procurei o meu amigo para lhe ler a passagem que lhe dizia respeito, e pôr- me à sua disposição no caso que precisasse de mim para pedir, quanto antes, àredacção do

Diário de Notícias a satisfação de honra, que homens de educação e de brio não poderiam decerto recusar a semelhante agravo.Em casa do meu amigo acabo, porém, de saber, cheio de con fusão e de surpresa, que ele desapareceu e que é ignorado o seu destino!

Este desaparecimento e a coincidência achada na carta do doutor levam-medesgraçadamente a acreditar que por estranhas fatalidades o meu infeliz amigo se acha involuntariamente en volvido neste tenebroso negócio. A data do desaparecimento delecondiz perfeitamente com a que encontro na carta do seu corres pondente. É claro q ue há, pois, em volta da pessoa de A. M. C., uma intriga real, uma emboscada talvez, uma traição.

Serei tristemente obrigado a ter por verídica, no todo ou em parte, a notícia que leio na sua folha? Julgo do meu dever assegurar o seguinte: Não seio que o meu amigo A. M. C. ia fazer alta noite a essa ca sa desconhecida, tendouma chave dela, martelo e pregos. Não sei porque se declarou autor do assassinato, negandoo depois. Ignoro a íntima verdade destas contradições.

Mas o que sei, aquilo de que posso já dar testemunho, e não só eu, mas amigos, masnumerosas pessoas, é que na noite que se mostra ter sido a do assassinato ele esteve, até quase de madrugada, em minha casa, conversando, rindo, bebendo cerveja.Saiu talvez às três horas da noite.

Declaro também, e isto pode ser igualmente apoiado por se guras testemunhas: que às nove horas da manhã do dia seguinte estive no quarto dele. Ainda dormia, acordousobressaltado à minha voz, e tornou a adormecer enquanto eu procurava entre os seus livros um volume de Taine.As donas da casa que o hospedam disseram-me que ele entra ra pela madrugada.

— Ali pela volta das três e meia — conjecturavam elas. Ora da minha casa, de onde saiu às três, até casa dele, onde en trou às três e meia, ocaminho que é longo, ocupa justamente este espaço de tempo.

Por consequência, respondam: quando cometeu ele o crime? O emprego do seu tempoestá todo justificado: das nove da noite até madrugada em minha casa, numa conversa jovial e íntima; da ma drugada até às nove, num sono pacífi co em sua própria casa.

Resta unicamente a meia hora do caminho, da qual não há testemunhas. É crível queem meia hora pudesse ir alguém a essa casa, preparar ópio, fazê-lo beber a um homem, falsificar uma declaração e vir sossegadamente dormir? Tem isto lógica?

Demais o crime foi cometido numa casa, o ópio foi deitado num copo de água, dadotraiçoeiramente. O cadáver estava meio despi do. Tudo isto indica que entre o assassino e o desgraçado houve uma entrevista, tinham conversado intimamente, tinham rido de certo; oque depois morreu tinha talvez calor, pôs-se livremente, tirou o casaco, contaram porventura anedotas, e num momento de sede, o ópio foi dado num copo de água. E tudo isto só faz em meia hora! Em meia hora! Devendo, meus senhores, descontar-se des ta meia hora o tempoque vai de minha casa à casa do crime, e daí a casa de A. M. C.! Pode isto ser?

Agora outro argumento: eu conheço A. M. C.; o seu carácter é digno, impecável; o seucoração é compassivo e simples; a sua vida é laboriosa e isolada; não existe nela nem mistério, nem aventura, nem patético: estava para casar, sem romance, trivialmente.

Eu sabia de todos os seus passos, conhecia as suas relações. Es tou certo que nunca viuo assassinado, o qual, no dizer do doutor, parecia estrangeiro, sem relações aqui, e domiciliado há pouco tempo em Portugal!Poderia ser um encontro casual, uma rixa inesperada? Impos sível. Se o homem foi encontrado estendido num sofá, morto com ópio!

Poderia M. C. ter sido assalariado para cometer este crime? Que loucura! Um homemda sua inteligência, do seu carácter, da sua elevação de espírito! Além de que, hoje o emprego de homici da, regular e devidamente retribuído como uma função pública, nãoexiste nos costumes.

Pode-se conceber que um homem que premedita um crime es teja até o momento decisivo distraído, espirituoso, desabotoando os seus paradoxos, bebendo cerveja? E quedepois vá sossegadamente dormir, e que um amigo que o visite na manhã seguinte en contre sobre a sua banca de cabeceira, uma chávena de chá e um livro de história?E dê-se isto com um homem de carácter tímido, de hábitos mo destos, homem de estudo, sem energia de acção, e de uma notável franqueza de impressões!

(continua...)

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