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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amaro estava enlevado. Aquela sala rica com as suas alvuras de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa que ele via sob a negra transparência da gaze, as suas tranças de deusa, os tranqüilos arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idéia duma existência superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em coupés acolchoados, com árias de óperas, melancolias de bom gosto e amores dum gozo raro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a música chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado, demora o seu prazer - pensando que vai voltar à dureza das côdeas secas e à poeira dos caminhos.

No entanto Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga ária inglesa de Haydn, que diz tão finamente as melancolias da separação:

The village seems dead and asleep

When Lubin is away!...

- Bravo! bravo! exclamou o ministro da Justiça, aparecendo à porta, batendo docemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!

- Tenho um pedido a fazer-lhe, Sr. Correia, disse Teresa erguendo- se logo.

O ministro veio, com uma pressa galante:

- Que é, minha senhora? que é?

O conde e o sujeito de magníficas suíças tinham entrado discutindo ainda.

- A Joana e eu temos que lhe pedir, disse Teresa ao ministro. - Eu já pedi! já pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.

- Mas, minhas senhoras, disse o ministro, sentando-se confortavelmente, com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata? É uma coisa grave? meu Deus! prometo, prometo solenemente...

- Bem, disse Teresa, batendo-lhe com o leque no braço. Então qual é a melhor paróquia vaga?

- Ah! disse o ministro, compreendendo e olhando para Amaro, que vergou os ombros, corado.

O homem das suíças, que estava de pé fazendo saltar circunspectamente os berloques, adiantouse, cheio de informações:

- Das vagas, minha senhora, é Leiria, capital do distrito e sede do bispado.

- Leiria? disse Teresa. Bem sei, é onde há umas ruínas?

- Um Castelo, minha senhora, edificado por D. Dinis.

- Leiria é excelente!

- Mas perdão, perdão! disse o ministro, Leiria, sede do bispado, uma cidade... O Sr. padre Amaro é um eclesiástico novo...

- Ora, Sr. Correia! exclamou Teresa, e o senhor não é novo?

O ministro sorriu, curvando-se.

- Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coçava ternamente a cabeça da arara.

- Parece-me inútil, o pobre Correia está vencido! A prima Teresa chamou-lhe novo!

- Mas perdão, protestou o ministro. Não me parece que seja uma lisonja excepcional; eu não sou também tão antigo...

- Oh, desgraçado! gritou o conde, lembra-te que já conspiravas em 1820.

- Era meu pai, caluniador, era meu pai!

Todos riram.

- Sr. Correia, disse Teresa, está entendido. O Sr. padre Amaro vai para Leiria!

- Bem, bem, sucumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas é uma tirania!

- Thank you, fez Teresa, estendendo-lhe a mão.

- Mas, minha senhora, estou a estranhá-la, disse o ministro, fixando-a.

- Estou contente hoje, disse ela. Olhou um momento para o chão, distraída, dando pequeninas pancadas no vestido de seda, levantou-se, foi sentar-se ao piano bruscamente, e recomeçou a doce ária inglesa:

The village seems dead and asleep When Lubin is away!...

Entretanto, o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.

- É negócio feito, disse-lhe ele. O Correia entende-se com o bispo. Daqui a uma semana está nomeado. Pode ir descansado.

Amaro fez uma cortesia, e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto do piano:

- Senhor ministro, eu agradeço...

- À senhora condessa, à senhora condessa, disse o ministro sorrindo.

- Minha senhora, eu agradeço, veio ele dizer à condessa, todo curvado.

- Ai, agradeça a Teresa. Ela quer ganhar indulgências, parece.

- Lembre-me nas suas orações, Sr. padre Amaro, disse ela. E continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano - as tristezas da aldeia quando Lubin está ausente!

Amaro daí a uma semana soube o seu despacho. Mas não tomara a esquecer aquela manhã em casa da Sra. condessa de Ribamar, - o ministro de calças muito curtas, enterrado na poltrona, prometendo o seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia yes... Cantava-lhe sempre no cérebro aquela ária triste do Rigoleto: e perseguia-o a brancura dos braços de Teresa, sob a gaze negra! Instintivamente via-os enlaçarem-se devagar, devagar, em torno do pescoço airoso do rapaz louro: detestava-o então, e a língua bárbara que falava, e a terra herética de onde viera: e latejavam-lhe as fontes à idéia de que um dia pode- ria confessar aquela mulher divina, e sentir o seu vestido de seda preta roçar pela sua batina de lustrina velha, na escura intimidade do confessionário.

(continua...)

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