Por Eça de Queirós (1925)
— Se tu me viesses convidar para ir deitar fogo ao Banco de Portugal achas que eu devia aceitar?...
Godofredo queria explicar que não era a mesma coisa: as duas vozes elevavam-se, entremeadas – e subitamente um silêncio do piano fê-los calar a eles também. Uma conversação elevou-se dentro na sala: depois as vozes elevaram-se tmbém, e havia uma alteração, em que as palavras de “saia branca”, “sua porca”, “a senhora não disse nada” chegaram com um som irritado. Um momento Carvalho escutou. Depois, encolheu os ombros; havia de ser algum novo desleixo da criada, uma desavergonhada, que tinham havia um mês, e que não fazia nada com jeito. Depois sentindo bater uma porta, dentro, não se conteve, foi ver.
Godofredo, só um momento, sentiu como um cansaço invadi-lo. Desde a véspera os seus nervos vibravam, retesados, como as cordas duma rabeca muito afinada. Tudo até ali lhe pareceu fácil, e a sua vingança segura. Mas agora, um depois do outro, recebia dois choques. O outro não quisera o suicídio à sorte; este não queria duelo de morte – e alguma coisa dentro dele começava a afrouxar, como se a sua alma se fosse cansando de estar há tantas horas, numa atitude sombria de vingança e massacre. E vinha-lhe um começo de enxaqueca, a enxaqueca que desde a véspera o ameaçava. Sentou-se no sofá, com a cabeça entre as mãos; um suspiro levantou-lhe o peito.
Carvalho entrou, vermelho, excitado. Tinha havido uma cena, ele pusera a criada fora. E então destemperou, queixou-se daquela sorte que o não deixava Ter uma criada decente, tudo uma súcia de desavergonhadas, porcas, e que o roubavam. Tinha saudades das pretas, não havia nada como criadas pretas...
— E então, dize lá, que pensas tu, de tudo isso? – exclamou com um ar desanimado Godofredo.
Carvalho encolheu os ombros.
— O melhor é deixar tudo como está, tua mulher em casa do pai, tu na tua, e o que lá vai, lá vai...
Mas um remorso tomou-o, quis mostrar coração, acrescentou:
— Em todo o caso conta comigo para tudo...
Lá um duelo regular, a espada, ou à pistola mesmo, para salvar a honra, sim senhor. Cá estou. Lá coisas trágicas não.
Godofredo disse então tomando o chapéu:
— Vamos ver o que diz o Medeiros, vamos à casa do Medeiros.
Carvalho ficou contrariado. Nesse dia ia passar o dia a Pedrouços com a mulher, à casa do sogro. Eram os anos do cunhado.... Mas enfim, num caso daqueles, era necessário fazer alguma coisa pelos amigos.
— Vamos lá, deixa-me avisar a Mariana que não posso ir...
Daí a pouco voltou, calçando as luvas com um ar desagradável. E já no meio da escada, parou, voltou-se para o Godofredo que seguia:
— Sabes que minha mulher está de esperanças, hein?... Um susto pode ser fatal, e se ela sabe que eu sou testemunha. Não é brincadeira... Enfim, vamos lá... Os amigos é para as ocasiões.
Embaixo tomaram uma carruagem, porque o Medeiros morava lá no inferno, adiante da Estrela. Era um coupé quase novo, fofo e asseado, que rolava sem ruído. Isto pôs Carvalho de melhor humor: e recostou-se, acabando de abotoar as luvas. Durante algum tempo não trocaram uma palavra. Depois, quando o coupé atravessava o Loreto, subitamente uma grande curiosidade pareceu invadir o Carvalho. Godofredo não lhe dera detalhes nenhuns. Que tinha dito Ludovina? Como soubera ele do caso? O que dissera o Neto? Godofredo, com um ar fatigado e em palavras curtas, completou a sua história. O outro desaprovava a mesada de trinta mil réis. Era uma gratificação dada à infâmia... E vendo Godofredo, com o ar abatido, que numa emoção mordia o beiço, como se o invadissem as lágrimas, murmurou:
— Esta vida é uma choldra.
E não trocaram mais palavra até casa do Medeiros. Quando bateram à campainha, o criado disse-lhes que o senhor Medeiros ainda estava na cama. Então Carvalho subiu as escadas, abriu o quarto do Medeiros, fazendo barulho, chamando-lhe mandrião e debochado. Atrás, Godofredo ia topando com os móveis na escuridão do quarto. Da sombra dos cortinados, a voz mal-humorada do Medeiros perguntava que invasão era aquela: e, quando lhe abriram a janela, berrou, enterrou-se nos lençóis não podendo suportar bruscamente a invasão da claridade. Mas terminou pôr mostrar a face inchada de sono e estremunhada; depois espreguiçou-se, ergueu-se sobre o cotovelo, e deitou mão a um cigarro, de cima da mesa-de-cabeceira.
Carvalho, sentado aos pés da cama, começou: durante um momento falaram daquelas preguiças do Medeiros. Ele explicou que se deitara às cinco da manhã... Depois Carvalho começou:
— Vimos aqui para um negócio muito grave.
O outro interrompeu-o, dando um berro pelo criado. Queria saber se viera uma carta pela manhã. O rapazote trazia-a, na algibeira. Medeiros sentou-se na cama, com o cabelo todo esguedelhado, abriu-a, nervoso, leu-a dum olhar, e, dando um suspiro de alívio, meteu-a debaixo do travesseiro.
— Caramba, ia sendo ontem apanhado. Pôr um segundo... E se o marido entra na cozinha, que é logo ao lado da porta, lá se ia tudo quanto Marta fiou. Irra, que não ganhei para o susto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.