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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Este ouvir e sentir refrigerou-me a febre da alma. Contemplei-me em minhas ferozes intenções, no centro dum espetáculo tão majestoso de poesia e inspirador de pensamentos afetuosos. A razão, resgatada momentaneamente pelos bons instintos e moralizadora educação que meus pais me deram, sopesou os ímpetos do coração vingativo. Desceu o anjo da paz à minha alma, e renasceu-me lá a esperança de encontrar alguma vez a mulher digna de mim, cuja posse me não custasse o sangue do meu semblante.

Ergui-me no intuito de abandonar para sempre à vingança da providência a mulher fementida e o vitorioso rival; ao dar, porém, os primeiros passos, relaceei os olhos ao jardim e vi um vulto vestido de branco, branco do mármore das estátuas tumulares. Estaquei, e o vulto caminhou direito à grade. “É ela”, disse o meu coração em ânsias. “Que veio aqui fazer Paula? Enganar-se-ia ela comigo?”

Retirei-me a um lado para ficar encoberto pelo muro. O vulto acelerou o passo, abriu subtilmente a grade, meteu fora a cabeça e murmurou:

- Já estão a dormir todos: podes entrar. Fiz-te esperar muito tempo?

Fiquei entre o palerma e o estupefacto.

- Anda, Caetano - tornou ela -, que estou a arrefecer! Tu não te mexes? Estás amuado?

- Vossa Mercê engana-se - disse eu, quando conheci a cozinheira ao clarão da lua.

Mal proferidas estas palavras, o vulto deu um grito de surpresa e fugiu, deixando aberta a grade.

A este tempo, ouvi passos na estrada, e, sem reflectir, entrei no jardim e sumi-me por entre a espessura dos arbustos. Pouco depois, vi entrar um vulto do homem no jardim, caminhar afoitamente, subir a um patim e empurrar de manso uma porta, que não se abriu. Mais tarde, correu-se uma janela superior à porta e travou-se este diálogo:

- Caetano!

- Eufémia!

- És?

- Sou. Abres?

- Não; tenho medo.

- Ora!, ainda estão a pé?

- Não é isso... Estava ali à porta do jardim um homem. Cuidei que eras tu. Não o viste? - Isso havia de ser para a fidalga: não vi ninguém.

- Não pode ser para a fidalga.

- Pois então quem era, senão o conde?

- Não era, que esse entrou às onze horas e está cá.

- Seja quem for; abre a porta.

- Hoje não: vai-te embora. Olha... tinha-se ali um franguinho assado... queres que to dei-te?

- Então é certo que não abres?

- Estou a tremer com medo. Será alguma espera para o Sr. Conde?

- Será...

- A fidalga é uma doidivanas... Será ele o do periquito?

- Lá se avenham... Então até amanhã.

- E o frango, quer-lo?

- Bota cá.

Pouco depois, o homem saiu, e eu, com o rosto entre as mãos, fiquei o tempo que pode gastar uma alma em descer ao Inferno e voltar ao mundo com uma brasa eterna nos seios.

Sai do jardim; fitei os olhos na lua: levei a mão convulsiva à testa e exclamei: “Anátema!” Dito isto, vim para Lisboa.

VI

Decorreram três meses, durante os quais fui à província vender uma parte da minha legítima paterna. Cuidava minha extremosa mãe que eu, dois anos ausente dela, ia enfim adoçar-lhe os últimos anos e resgatar os empenhos a que sacrificara os bens. Não a desenganei logo por compaixão; mas o aspecto melancólico da minha aldeia, o silêncio, a quietação penosa do lar doméstico e a sensaboria das práticas monótonas de quatro clérigos das partidas da minha mãe tornaram-me as saudades de Lisboa em profundo tédio da minha terra.

Liquidada a venda de algumas propriedades, que minha boa mãe, com engenhosa compaixão de meus desatinos, fez comprar por terceira pessoa, voltei a Lisboa.

Como disse, tinham passado três meses sobre o meu coração. Aquela eterna brasa que eu, por amor da retórica, há pouco disse que trouxera do Inferno nos seios da alma, estava quase apagada, como todas as brasas que a gente inflama com assopros de estilo. Pelo modo como o homem e o amor estão feitos neste tempo, três meses de ausência correspondem àqueles dilatados anos dos amores da Idade Média, que traziam da Palestina à castelã saudosa o coração leal do seu cavaleiro. Peitos de ferro deviam albergar corações de férrea tenacidade. Agora, é mais íntimo e doravante o amor, mais combustível o coração; a chama, batida por variados ventos, ateia-se mais enfurecida e o elemento dos afectos volatiza-se rapidamente. A mais aumenta a versatilidade humana, quando o amor-próprio sai anavalhado destas lutas, em que é grande parte o orgulho. Assim se explica o quase esquecimento de Paula quando voltei a Lisboa; e, se de todo não a esquecera, fora a curiosidade de saber a conta em que o mundo a tinha que me levava a indagar os pormenores da sua vida.

O boleeiro, que já o não era da casa de Benfica, deu-me alguns, os mais agravantes à honra da menina; os outros comunicaram-mos as suas amigas, os seus turibulários, os poetas que a traziam em letra redonda nas décimas dos folhetins e os noticiaristas que a vinham sempre aclamando rainha dos bailes.

(continua...)

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