Por Camilo Castelo Branco (1864)
Deste primeiro colóquio saiu a morgada pensativa. Algumas senhoras, grandemente e astuciosamente admiradas, entraram na cela da menina a perguntar-lhe se era, em verdade, seu primo Eleutério o peralta que a visitara. Teodora respondia que sim entre ufana e desdenhosa. As freiras benziam-se e exclamavam:
- Que perfeito rapaz ele se fez! Ninguém havia de dizer o que saia dali! Em Braga não passeia outro que o valha, nem quem o exceda.
- Seu primo é uma figura que dá na vista! - ajuntava a mais deliciosa das freiras para não ficar em pecado com a sua consciência.
Teodora, quando acordou na manhã seguinte, viu duas imagens: uma enevoar-se e esvair-se como sonho que a memória não pode já reter: era a imagem de Afonso; outra avultou-lhe completa nos menores traços, radiosa, animada e animadora: era a imagem de Eleutério Romão dos Santos.
Ergueu-se alegre, abriu a janela do seu cubículo, aspirou o ar do céu, que nunca lhe parecera de tão lindo azul, e invejou as aves que volitavam mui serenas gorjeando, ou regirando umas jubilosas voltas, que à menina se figuraram as delicias da liberdade.
Amava ela Eleutério Romão?! Não amava, disse-o ela, e eu juro nas palavras de Teodora. O que ela amava era a liberdade; os anelos de sua alma ansiavam sôfregos um viver, que o temperamento lhe estava pedindo a gritos, gritos que a sociedade não escuta, não acredita e não perdoa, O que ela via em Eleutério era o homem já.desfigurado da repulsão primária; o homem aceitável como libertador de um seio que quer encher-se de perfumes, sem se dar em servidão ao homem que lhe vai descancelar os áditos do mundo. Assim é que muitas mulheres têm amado aqueles que as salvam; deste amor assim chamado por não haver mais elástico epíteto que dar à coisa é que surdem os irremediáveis infortúnios, os ódios irreconciliáveis e as afrontas que levantam as campas, encerram algozes e vítimas e ficam ainda de pé sobre as lousas infamadas, pregoando o opróbrio dos filhos gerados no crime e amaldiçoados na infâmia de suas mães... Colho as velas; que, neste rumo, ia varar em sensaboria encapotada em moralização: coisa duas vezes importuna.
Conseguira, neste tempo, a senhora de Ruivães que uma secular das Ursulinas entregasse uma carta à morgada, carta de esperanças, alento e consolações, com miúdas noticias dos padecimentos do filho em Ruivães e das penas e receios que o desesperavam em Lisboa. Terminava a carta prometendo à menina que, antes de cumpridos dois anos, os votos de todos se haviam de realizar diante de Deus, contanto que Teodora conservasse firmeza, coragem e constância.
- Dois anos! - disse entre si a morgada. - Esperar dois anos neste purgatório... Se Afonso me ama, porque não há-de vir já roubar-me deste cárcere? Dois anos! e viveria eu aqui tanto tempo à espera de não sei quê?! Eu cativa aqui dois anos, e ele em Lisboa a divertir-se!... Se ao menos eu o esperasse em liberdade, os dias iriam menos arrastados; mas, privada dos prazeres que ele está gozando, esperar um futuro talvez duvidoso... é loucura! Quem me diz a mim que Afonso, neste espaço tamanho de tempo, se não apaixona por outra? Se ele me ama, como dizia, e a mãe me diz agora, quem nos impede de casarmos já? Se somos muito novos, lá virá ocasião de envelhecermos. Oque eu tenho, meu é já; ninguém mo rouba por eu casar contra vontade do conselho de família... Dois anos!
E, naquele dia e nos dias seguintes, Teodora, de cinco em cinco minutos, dizia: Dois anos! e ficava meditativa, até de novo exclamar: Dois anos! Respondeu a morgada à mãe de Afonso que a sua saúde se havia perdido na opressão e dissabores daquela vida, em que tão contrariada se via. Dizia mais que a precisão de se livrar de tal cativeiro a obrigaria a dar-se como esposa a um homem que ela não amasse. Queixava-se da ausência e silencio de Afonso e citava o namorado da sua amiga Libana como exemplo de rapazes apaixonados. Concluía desejando a Afonso todas as venturas deste mundo, enquanto ela se deliberava a experimentar todas as desgraças. A virtuosa de Ruivães, lendo o final da inesperada carta, acolheu-se à sua capela, e longo tempo esteve em joelhos pedindo à Virgem que defendesse Teodora dos seus funestos instintos.
E, desde aquela hora, a mãe de Afonso, com quanta delicadeza de admoestação e brandura afectuosa pôde, desviou o filho de pensar em Teodora como futura companheira de sua vida. Afonso pedia instantemente explicações de tal mudança no espírito de sua mãe; e ela, podendo responder com o mais idóneo documento, que era a própria carta da morgada, dilatava as suas razões para mais tarde. E, ao mesmo tempo, escrevendo a Teodora, conjurava-a a ter mão de sua imprudente mocidade, descrevialhe o quase nada que conhecia do mundo, citava-a para diante da virtuosa memória de sua mãe; mas não lhe falou de Afonso.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.