Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Vá por onde veio, e não olhe para trás. Simão foi indo até encontrar o cavalo. Montou, e esperou os dois inalteráveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o súbito desaparecimento dos criados de Baltasar, e recearam-se de alguma espera fora da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão, dizendolhe que picasse a toda a brida, que ele e o cunhado lá iriam ter. O acadêmico recebeu com enfado a advertência, admoestando-os a que o não tivessem em tal vil preço. E acintemente sofreu as rédeas para não forçar os homens a aligeirar o passo.
— Vá como quiser — disse mestre João — que nós vamos por fora do caminho.
E subiram a uma rampa de olivais, para tornarem a descer encobertos por moitas de giesta, cosendo-se aos torcicolos duma parede paralela com a estrada.
— O atalho vai acolá onde a serra faz aquele cotovelo — disse o ferrador ao cunhado, — hão de ali passar, ou já passaram. A estrada vai mesmo na quebrada daquele outeirinho. Os homens é dali que vão atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa...
E um pouco descobertos, e outro curvados à sombra das devesas, chegaram a um valado donde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o pontilhão de um córrego.
— Já não vamos a tempo — disse aflito o João da Cruz — os homens vão atirar-lhe, porque o cavalo trupa cá muito atrás.
E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado o outeiro, em cujo vale corria a estrada.
— Os homens vão atirar-lhe... — disse o ferrador.
— Gritemos daqui ao doutor que não vá para diante.
— Já não é tempo... Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos.
Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira quando ouviram dois
tiros.
— Arriba! — exclamou João da Cruz — que não vão meter-se à estrada, se mataram o fidalgo.
Tinham vencido o chá, esbofados e ansiados, com as davinas aperradas. Os criados de Baltasar, ao invés da conjetura do ferrador, retrocediam pelo mesmo atalho, supondo que os companheiros de Simão iam adiante batendo os pontos azados à emboscada, ou se tinham retardado.
— Eles aí vêm! disse o areeiro.
— Nós cá estamos — respondeu o ferrador, sentando-se a coberto de um cômoro. — Senta-te também, que eu não estou para correr atrás deles. Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vulto, e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os socalcos duma vinha e outro atirando-se a uns silveirais.
— Atira ao da esquerda — disse João da Cruz.
Foram simultâneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um cadáver. Os balotes do areeiro não estremaram o outro entre o carrascal onde se embrenhara.
A este tempo assomava Simão no teso donde lhe tinham atirado, e corria ao ponto onde ouvira o segundo tiro.
— É vossa senhoria, fidalgo — bradou o ferrador.
— Sou.
— Não o mataram?
— Creio que não — respondeu Simão.
— Este desalmado deixou fugir o melro — tomou João da Cruz — mas o meu lá está a pernear na vinha. Sempre lhe quero ver as trombas...
O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o cadáver, dizendo:
— Alma de cântaro, se eu tivesse duas clavinas, não ias sozinho para o inferno.
— Anda daí! — disse o areeiro — deixa lá esse diabo, que o senhor doutor está ferido num ombro. Vamos depressa, que está o sangue a escorrer-lhe.
— Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima da ribanceira, e cuidei que eram vocês — disse Simão, enquanto o ferrador, com a destreza de hábil cirurgião, lhe enfaixava com lenços o braço ferido. — Parei o cavalo, e disse: "Olé! há novidade?" Logo que me não responderam, saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram fogo. Quis saltar à ribanceira, mas não pude romper o mato. Dei uma voltar grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar ferido.
— Isto é uma arranhadura — disse João da Cruz — olhe que eu sei disto, fidalgo! Estou afeito a curar muitas feridas.
— Nos burros, mestre João? — disse o ferido, sorrindo.
— E nos cristãos também, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um rei que não queria outro médico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o meu corpo, que está uma rede de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com ceroto e vinagre sou capaz de ir ressuscitar aquela alma do diabo que ali está a escutar a cavalaria.
Nisto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha saltado o companheiro do morto.
João da Cruz, como galo de fino olfato, fitou a orelha e resmungou:
— Querem vocês ver que eles se armam!.
Dar-se-á caso que o outro ainda esteja por ali a tremer maleitas?
O rumor continuou, e logo um bando de pássaros rompeu dentre a folhagem, chilreando.
— O homem está ali — tornou o ferrador. — Passe-me cá uma pistola, senhor Simão!
Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande restolhada se fez entre as moitas de codessos e urzes.
— Ele estrinça lenha como um porco do monte! — exclamou o ferrador, — Ó cunhado, bate este mato com alguns penedos; quero ver sair o javali da moita!..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.